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Sobre a ofensiva ucraniana em Kharkiv e as condições para a derrota militar de Putin

LIT-QI, Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional

21 de setembro de 2022
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As forças ucranianas realizaram uma bem-sucedida ofensiva em Kharkiv, nordeste da Ucrânia. Pela segunda vez durante a guerra, a classe trabalhadora ucraniana forçou os ocupantes russos-fascistas (“rashisty”) a uma fuga humilhante. Em poucos dias, os soldados do Exército e das defesas ucranianas libertaram mais territórios do que o exército russo havia conseguido capturar desde abril. Isto incluiu a libertação de povoamentos importantes, como Kupiansk e Izyum, ameaçando o fornecimento, desde Belgorod, para todo um agrupamento russo e forçando-o a recuar apressadamente. A população das cidades e aldeias libertadas dos ocupantes saudou, com alegria, os combatentes ucranianos.

Esta ofensiva se dá em condições aparentemente impossíveis. No front, os ucranianos enfrentam um exército muito mais bem armado. Os governos ocidentais não estão fornecendo o armamento necessário ou na quantidade necessária. Na retaguarda, a “ajuda humanitária”, tão necessária na frente de combate, está sendo comercializada. O governo Zelensky tem aprovado leis contrárias aos trabalhadores e de interesse dos oligarcas, confiscando os salários civis dos combatentes. O sucesso da ofensiva cabe inteiramente ao povo da Ucrânia.

Se tudo dependesse apenas de heroísmo, Putin já teria sido derrotado há muito tempo. A ofensiva ucraniana e a fuga dos ocupantes não demonstraram apenas que Putin pode ser derrotado. Mostraram, também, que derrotar Putin militarmente é a tarefa mais urgente e como ela pode ser alcançada.

Dois exércitos

Do ponto de vista militar, há duas Forças Armadas distintas se enfrentando na Ucrânia. E é exatamente isso o que se expressou nos recentes acontecimentos na região de Kharkiv.

A Ucrânia está sendo defendida por sua classe operária, que luta massivamente por sua terra, por suas casas e por suas famílias; seja no front, sob ocupação, ou na retaguarda. Mas lhe falta armamento pesado.

Já o exército de Putin, por outro lado, possui enorme quantidade de armamentos, mas não tem gente o suficiente para combater nem para usar estas armas. Mesmo os trabalhadores russos, apesar de embriagados pela propaganda governamental, não querem ir para a guerra. Putin não consegue mobilizá-los para as trincheiras. Ele se vê obrigado a recrutar mercenários entre marginais e gente muito empobrecida, dos rincões da Rússia e de povos ainda mais oprimidos (que vivem dentro da Federação Russa). As reservas de Putin estão limitadas àquilo que resulta de uma sociedade em putrefação.

Yevgeny Prigozhin, oligarca russo e homem de confiança de Putin, está percorrendo as prisões pessoalmente e recolhendo os criminosos mais rudes para enviar ao front. A “valentia militar” desta escória humana se expressa principalmente na capacidade de ocupar ruínas vazias, realizar saques, estupros e usar de brutalidade contra a população dos territórios ocupados. Mas quando confrontado com uma força viva, tal “exército” começa a desmoronar.

Duas táticas para a guerra

O exército russo é incapaz de realizar uma guerra-móvel: a mobilidade implica em bom treinamento ou em motivação e disposição para morrer. As unidades russas bem treinadas já foram eliminadas e a escória não possui nenhum treinamento e, muito menos, comprometimento, dedicação ou ânimo.

Para o exército russo é conveniente a clássica guerra do século 20, com uma frente estática, de pouca movimentação e com capacidade de bombardear continuamente as posições do inimigo à grande distância, evitando um confronto cara a cara. Durante a ofensiva na região de Donbass (no leste da Ucrânia), o exército russo conseguiu impor este tipo de guerra, resultando em pesadas baixas entre os combatentes ucranianos.

A tática vantajosa para o lado ucraniano é o combate móvel, com pequenas unidades bem motivadas, agindo à curta distância, reduzindo o papel da artilharia; com armamento de produção e uso relativamente simples, impondo um confronto cara a cara, e tendendo a convergir com as ações de resistência nos territórios ocupados. Na ofensiva em Kharkiv, os combatentes ucranianos conseguiram impor, com sucesso, exatamente este tipo de guerra.

O povo ucraniano precisa de apoio

A vitória em Kharkiv é um exemplo do grande sucesso das táticas assimétricas, adequadas para quando se tem superioridade em número de combatentes, mas falta de armamento pesado. E esta tática assimétrica, bem-sucedida, precisa ser ampliada. Para isso é necessário:

– Garantir provisões para a principal força de resistência – os operários do front – e suas famílias na retaguarda, com tudo o que precisam.

– Expandir a organização militar em base ao princípio das unidades móveis de defesa territorial, que têm mostrado sua eficácia, além de treinamento universal do povo no uso de armas, e armamento do mesmo.

– Focar as fábricas na produção do armamento e de todos os produtos necessários, no marco de um plano único de defesa nacional.

Fazendo o oposto

Mas a política do governo ucraniano é a oposta. Em vez de táticas assimétricas, aposta em uma guerra simétrica em armamentos, o que significa grandes perdas, o que, de antemão, está fadado à derrota.

Em vez de montar sua própria produção de armas e um plano de defesa unificado em escala nacional, fica esperando por armas ocidentais, que nunca chegam na quantidade necessária, fechando empresas ucranianas porque são “não-lucrativas” para os oligarcas, e despedindo operários, dividindo a Ucrânia em uma parte militar e outra parcela onde “não há guerra”, como se houvesse duas Ucrânias.

Em vez de garantir provisões aos operários no front e a suas famílias, na retaguarda, e de ajudar os refugiados, o governo aplica leis antioperárias, comercializa ajuda humanitária e alimenta um mercado clandestino de moradias. Em vez de ampliar o papel dos esquadrões de defesa territorial, implementar treinamento militar universal e o armamento do povo, o que vemos são subornos (por partes dos ricos) para não precisarem servir ao Exército e um recrutamento centrado nos ativistas operários, para enfraquecer as lutas da classe operária nas fábricas.

Êxito na retaguarda também é fundamental

Para implementar as medidas necessárias, não se pode confiar nos governos ocidentais e nem no governo Zelensky. É necessário que os trabalhadores da Ucrânia tomem a tarefa de defender o país em suas próprias mãos, tanto no front quanto na retaguarda.

Não ao fechamento de empresas e demissão de trabalhadores! A classe operária deve tomar as fábricas sob seu próprio controle e, em aliança com os operários do front, organizar a produção dos produtos necessários para a defesa.

Nenhum prejuízo aos interesses dos trabalhadores por parte dos proprietários das fábricas! Pelo cancelamento das leis antioperárias do governo! Pela provisão completa para os trabalhadores do front e suas famílias! Prisão, com confisco dos bens, de todos que comercializem ajuda humanitária. Pelo controle operário da ajuda humanitária.

Pelo treinamento militar universal por local de moradia, armamento e ampliação das Unidades de Defesa Territorial. Prisão, com confisco de bens, dos que “compram dispensas” do serviço militar.

Pela total derrota de Putin! A Ucrânia pode e deve vencer.

Em setembro

CSP-Conlutas vai participar de novo comboio de ajuda operária a Ucrânia

Desde o início da guerra, a CSP-Conlutas se colocou a favor da classe trabalhadora da Ucrânia e fez parte do “Comboio de Apoio à Resistência Ucraniana”, realizado no final de abril. A iniciativa foi de entidades integrantes da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas. Lá, os integrantes do comboio se reuniram com sindicalistas e ativistas de diversos países, como França, Itália, Polônia, Lituânia e Áustria, além de resistentes da Ucrânia. Todas as doações foram entregues a sindicatos ucranianos.

Dessa vez, um novo comboio está sendo organizado para o final de setembro. De acordo com os relatórios do Sindicato Independente de Mineiros e Metalúrgicos de Kryvyi Rih, ainda são necessários equipamentos técnicos e de cuidados médicos, que serão a prioridade deste 2º Comboio da Rede Sindical Internacional.

Nós, ucranianos, temos resistido à invasão russa há mais de seis meses com trabalhadores comuns e pessoas comuns na linha de frente. A Rússia é uma Federação enorme e tem o segundo maior exército do mundo”, explicou Oleck Vernik, presidente do Sindicato Independente da Ucrânia (Proteção ao Trabalhador), que enviou um vídeo à última reunião nacional da CSP-Conlutas, agradecendo à solidariedade da classe trabalhadora brasileira.