Estamos assistindo a um lento derretimento da candidatura de Flávio Bolsonaro. Algo que mostra, mais do que uma crise e fragmentação da extrema direita, a resiliência de uma candidatura que, após sucessivos escândalos de corrupção, em condições normais e outras épocas, já teria sido há muito completamente pulverizada.
Ao mesmo tempo, a candidatura de Renan Santos pelo partido Missão, sigla legalizada pelo MBL, vem ganhando certo espaço na mídia, talvez até mais desproporcional ao tamanho que representa de fato. Parte da Faria Lima, ao que parece, não descarta essa alternativa de extrema direita, principalmente diante de um eventual esfacelamento irrecuperável da candidatura bolsonarista (é dada como certa a revelação de um vídeo de Flávio em festas pouco ortodoxas para os padrões "conservadores").
Fato é que a candidatura de Renan, que embora já conte com 42 anos nas costas, se apresenta como "jovem", tem conquistado parcelas nada desprezíveis do eleitorado. Pesquisa da Real Time Big Data aponta a liderança do MBL com 9% das intenções de voto, índice que aumenta para 12% entre jovens de 16 a 34 anos. Na AtlasIntel, aparece com 37,9% no recorte entre 16 a 24 anos.
A penetração do MBL entre parte significativa da juventude, assim, é um fato consolidado. Ignorar isso não vai mudar em nada, e a estratégia do silêncio, como vimos com Bolsonaro, apenas facilita que o MBL nade de braçada numa conjuntura em que setores cada vez mais expressivos vão se descolando da polarização entre Lula e Bolsonaro.
MBL: o ultraliberalismo disfarçado de terceira via
O Movimento Brasil Livre ganhou notoriedade com a crise da chamada Nova República, cuja expressão máxima ocorreu nas jornadas de junho de 2013. Ganhou ainda mais expressão nas mobilizações contra Dilma em 2014, numa conjuntura em que a extrema direita internacional se apropriava das redes sociais. Com ações performáticas, uma estética "indie" e um discurso ultraliberal, incorporou de forma oportunista pautas conservadoras num processo de aproximação com o bolsonarismo.
Num misto de caracterização política da derrocada do bolsonarismo junto a um instinto de sobrevivência, o MLB rompe com Bolsonaro e, apesar de seus parlamentares estarem alocados nas siglas bolsonaristas, investe na criação do próprio partido e no esforço para se descolar desse movimento. Investe, então, num trabalho político de elaboração programática, captação de militantes e propaganda. Um processo, evidentemente, muito bem financiado e provavelmente não tão "orgânico" quanto querem fazer parecer.
Enquanto o partido Novo, que se pretendia representante de uma direita ultraliberal "pura", foi fagocitado pelo bolsonarismo, o MBL amargou, de forma consciente, um isolamento na extrema direita na expectativa de se colocar como alternativa deste espectro. E foi, a partir disso que, mesmo com os escândalos de machismo e misoginia envolvendo Arthur do Val (Mamãe Falei), envolvimento com quadros declaradamente supremacistas e até denúncias de estupro, o MBL ganhou espaço no debate político.
Projeto autoritária e racista
Sob o lema "o futuro é glorioso", Renan Santos e o MBL/Missão se espelham em projetos da ultradireita, como Bukele em El Salvador na questão da segurança pública, e Milei na Argentina na política econômica. Como eles, se colocam como "antissistema", atacam o bolsonarismo pelas concessões ao centrão e o tema da corrupção. Mas, também como seus modelos, não questionam os pilares deste sistema: a dominação da economia por grandes monopólios capitalistas, a entrega do país com a perda da soberania e o retrocesso colonial. Ao contrário, seu projeto pretende justamente pisar no acelerador rumo ao abismo em que nos encontramos.
No lançamento de sua candidatura, Renan Santos, focou no que é descrito pelas pesquisas como uma das maiores preocupações dos brasileiros: a segurança pública. “Desde o primeiro dia do governo, estaremos em campanha contra o crime organizado, utilizando os mecanismos da GLO [Garantia da Lei e da Ordem] e do Estado de Defesa para romper o controle territorial das facções”, discursou. Isso se daria através da adoção do Direito Penal do Inimigo, um modelo de política criminal que, mais que "endurecer" penas, divide as categorias de "cidadãos" e "inimigos". Em resumo, suprime-se os direitos e garantias de eventuais "suspeitos" (que sabemos, tem cor, classe social e CEP), inverte-se a lógica da presunção da inocência e se instaura um arcabouço legal para o aprofundamento do extermínio que já ocorre nas periferias.
Trata-se, na prática, da institucionalização do genocídio da juventude negra nas favelas e periferias já praticado pela Polícia Militar, mas agora também com as Forças Armadas. Uma política que encontra eco no senso comum quando o tema é segurança pública, mas que esconde, por exemplo, que os líderes de facções criminosas estão incrustadas na Faria Lima. O olhar do MBL, neste sentido, é marcadamente higienista e racista. A "desfavelização" pregada pelo movimento não é uma urbanização e a garantia de direitos aos moradores, mas o simples extermínio físico.
O programa de Renan Santos prevê, ainda, a militarização das escolas em áreas "de risco", reforçando a visão de que o problema da criminalidade é "falta de disciplina". E, ainda no que se refere à Educação, a proposta do fim das cotas, deixa evidente que o projeto do MBL é, além de exterminar a juventude negra, aumentar o encarceramento em massa, disciplinar os filhos da classe trabalhadora e dificultar seu acesso à universidade pública, aprofundando uma divisão de classes ao ponto de uma segregação de castas, em que uma parte deve sobreviver para servir, e outra, para ser servida.
Retrocesso reacionário
No que se refere à política econômica, o MBL propõe o fim do Bolsa Família, e dos programas que caracteriza como "assistencialistas", assim como a desvinculação do piso do salário mínimo à aposentadoria e ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), garantido a idosos carentes que não puderam contribuir ao INSS. Defendem ainda o fim dos pisos constitucionais da Saúde e da Educação e um rigoroso ajuste fiscal.
Nas relações trabalhistas, pregam o desmonte da CLT e a livre negociação entre patrão e empregado. Assim como o avanço da privatização em setores estratégicos, e a liberalização do comércio exterior.
Para um público identificado como de esquerda, esse programa pode soar absurdo. Porém, para parcela significativa da população (e sobretudo da juventude, que cresceu durante os governos do PT), ele parte de problemas reais. A falta de segurança atinge mais a classe trabalhadora, fora dos condomínios de luxo protegidos por seguranças particulares. O subemprego, a escala 6x1, os baixos salários e os impostos que recaem, principalmente, sobre o consumo (e consequentemente em cima dos mais pobres), é a base material para o programa da extrema direita e discursos como o do empreendedorismo.
Após quase 17 anos de governos petistas, e um trágico mandato de Bolsonaro, em meio a um brutal processo de decadência do país e falta de perspectivas, cresce o sentimento antirregime. Um sentimento que, sem encontrar eco na esquerda da ordem, comprometida com o status quo e percebida como representante do "sistema", é capturado pela extrema direita. Junte-se a isso um retrocesso da consciência e o surgimento de ideologias reacionárias como os "red pill", e se tem o ambiente perfeito para que slogans como "prendeu, matou" encontrem ressonância.
O MBL/Missão, se aproveita, assim, de forma oportunista, deste sentimento para apresentar um programa que, na forma, é disruptivo, mas que, na essência, representa esse mesmo sistema, mas mais brutal, repressivo, opressor e explorador. Enquanto se apresenta como antissistema, preserva justamente os pilares centrais do capitalismo: propriedade privada dos grandes grupos econômicos, abertura maior ao capital estrangeiro, ajuste fiscal, privatizações e flexibilização das relações de trabalho. As grandes multinacionais, o capital financeiro internacional, o grande agronegócio e os grandes empresários lucrarão ainda mais com um projeto que une o aumento da exploração e um regime autoritário.
Diferente de Flávio Bolsonaro e outros candidatos da direita e da extrema direita, porém, o fazem sem mediações, sem "dourar a pílula", reforçando uma certa aura de sinceridade tão valorizada em tempos de redes sociais.
Enfrentar a extrema direita e superar a conciliação de classes
Enquanto o MBL disputa programaticamente setores da população para seu projeto de forma franca e aberta, parte majoritária da esquerda, como o PSOL, investe no "mal menor", chamando o voto em Lula como forma de "combater o fascismo". Ou seja, mesmo um programa reformista mínimo, que combate o arcabouço fiscal, o desmonte dos serviços públicos e a desregulamentação das leis trabalhistas, é escondido para, na prática, apoiar um governo e uma alternativa que vem implementando justamente esse projeto.
E é aqui que chegamos a uma situação em que a esquerda de forma majoritária defende a ordem e o regime, e a extrema direita disputa a consciência para um programa falsamente antissistema, mas cujo discurso aponta para uma ruptura com o establishment.
Para enfrentar a extrema direita é preciso desmascará-la, e apresentar um programa realmente antissistema, contra os monopólios capitalistas que dominam a economia nacional, e o processo de regressão colonial que vem impondo décadas de decadência e se concretiza na piora das condições de vida e na falta de perspectiva para grande parte da classe e, sobretudo, a uma juventude cada vez mais precarizada. E é simplesmente impossível fazer isso sem dar nomes aos bois: o governo Lula e seu projeto caminham para o aprofundamento desse processo de decadência.
O mais provável, evidentemente, é que Renan Santos não tenha chance real de ganhar as eleições. Mas sua projeção e a disputa programática e ideológica que trava, e avança, principalmente na juventude, é o verdadeiro perigo.
Para a esquerda revolucionária e socialista se coloca a tarefa de travar uma dura disputa pela consciência da classe trabalhadora e da juventude, para uma real alternativa antissistema, que só será realmente antissistema se atacar os pilares do capitalismo, superando a conciliação de classes dos governos do PT, em defesa de uma real soberania e apontando uma estratégia socialista.