De um lado, a ofensiva mais agressiva do imperialismo estadunidense sobre o continente em décadas, apoiada numa rede de governos de extrema direita. De outro, uma classe trabalhadora que não foi derrotada e, a exemplo da Bolívia, mostra na prática como enfrentá-los.
A extrema direita é um perigo para os trabalhadores
A extrema direita acumula importantes vitórias eleitorais. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou o candidato apoiado por Gustavo Petro. Keiko Fujimori venceu no Peru, país com oito presidentes em dez anos. Somam-se a Kast no Chile, à reeleição de Noboa no Equador, a Milei na Argentina e a Bukele, que governa El Salvador desde 2019 como uma ditadura.
Articulados com Donald Trump, esses governos aprofundam os ataques aos trabalhadores, a entrega das riquezas nacionais e ameaçam com mais autoritarismo e repressão. Quando necessário, podem avançar ao estado de exceção e endurecer os regimes.
Quanto mais Trump se atola no Oriente Médio, mais aperta o controle do “quintal”, ampliando a ingerência na região com agressões militares, ameaças às eleições e medidas econômicas como o tarifaço contra o Brasil, para subordinar governos aos interesses dos monopólios estadunidenses, em especial dasbig techs.
Essa ofensiva ocorre em meio à disputa entre EUA e China. Para preservar sua hegemonia, os EUA buscam controlar minerais estratégicos, mercados e garantir os lucros de seus monopólios. A China, por sua vez, ampliou rápido sua presença na região, tornou-se o principal parceiro comercial de vários países e expandiu seus investimentos em infraestrutura e setores estratégicos para disputar mercados e lucros. Trocar a dominação estadunidense pela chinesa, porém, não altera a lógica da dependência. Apenas substitui um imperialismo por outro.
Lutas
A resistência dos trabalhadores

A vitória eleitoral da extrema direita não significou a derrota da classe trabalhadora. Tampouco as ameaças de Trump ficam sem resposta. A resistência segue viva em todo o continente, em uma situação de forte polarização social e política. O problema não é falta de disposição para lutar, mas ausência de uma direção capaz de unificar essas lutas e transformá-las em alternativa política própria.
No Chile, estudantes voltaram às ruas contra os cortes na saúde e na educação. Na Argentina, as lutas operárias enfrentam o ajuste de Milei e há uma importante reorganização da esquerda. No Equador, o levante indígena e popular de 2025 contra o pacote de Noboa paralisou o país por semanas. No Peru, sucessivas mobilizações derrubaram presidentes.
Nos próprios EUA cresce a resistência a Trump, com manifestações contra a guerra, contra o ICE e em defesa dos imigrantes. Ao mesmo tempo, aumenta entre a juventude a simpatia pelo socialismo e a rejeição ao Estado sionista de Israel.
O exemplo mais importante foi a Bolívia. Mineiros, camponeses e povos indígenas responderam ao plano neoliberal do governo com bloqueios e mobilizações que paralisaram o país durante semanas. O movimento, porém, acabou derrotado, apesar da disposição de luta, pela política de suas direções. A Central Obrera Boliviana (COB) negociou com o governo, abandonou a exigência de sua derrubada e se recusou a organizar uma greve geral, permanecendo presa à disputa entre Evo Morales e Luis Arce em vez de apontar uma saída independente dos trabalhadores.

Conciliação de classes fortalece extrema direita
Os defensores da conciliação de classes afirmam que é preciso eleger governos progressistas para derrotar a extrema direita. Mas a experiência recente demonstra exatamente o contrário. Foi assim na Colômbia, com Gustavo Petro, e no Chile, com Gabriel Boric. Depois de seus governos, a extrema direita voltou ao poder.
Isso acontece porque esses governos mantêm intactos os pilares do capitalismo. Preservam os acordos com a burguesia, respeitam os interesses das multinacionais e apresentam a democracia burguesa como horizonte intransponível. Contra as privatizações e os ataques neoliberais da extrema direita, a esquerda de conciliação responde administrando o mesmo sistema a seu modo e aplicando seus próprios ajustes. Ao convencer os trabalhadores de que é possível administrar o capitalismo de maneira mais humana, desarmam sua organização independente e produzem frustração já que as condições de vida continuam se deteriorando.
As últimas décadas na América Latina demonstram esse processo. Grandes mobilizações populares foram desviadas para a via eleitoral e terminaram em governos que administraram a decadência do capitalismo sem enfrentar suas causas. Os regimes políticos construídos após as ditaduras preservaram uma democracia dos ricos incapaz de resolver os problemas sociais mais elementares. Nesse cenário, a extrema direita conseguiu capitalizar o desgaste dos governos tradicionais e também dos governos progressistas.
A extrema direita não pode ser derrotada meramente por eleições, justamente porque é produto dessa realidade. É necessário que sejam enfrentadas e destruídas as bases capitalistas que permitem a ela se fortalecer.
Lula e a desculpa da correlação de forças

No Brasil, sempre que é cobrado a fazer mais, o governo Lula e os petistas respondem que não há correlação de forças para atender os trabalhadores. Mas qual foi a postura desse governo quando, na Bolívia, os trabalhadores construíram essa correlação de forças nas ruas, contra um governo de direita apoiado por Trump?
Lula não apenas deixou de prestar solidariedade às vítimas da repressão como saiu defendeu o governo boliviano. Depois de telefonar para Paz, anunciou toneladas de mantimentos em ajuda ao governo e apelou ao “Estado de direito”, posicionando-se de modo objetivo ao lado de Trump e Milei na sustentação de um governo odiado pelos trabalhadores e camponeses pobres.
Parte da justificativa de Lula é que Paz foi eleito de forma democrática e, por isso, não poderia ser derrubado pelo povo. Mas que democracia é essa? A que existe na Bolívia, e também no Brasil, é uma democracia dos ricos: controlada pelos capitalistas, que garantem seus lucros em detrimento dos interesses dos trabalhadores. Uma coisa é um presidente ser derrubado por militares, por golpes reacionários ou pelo imperialismo. Isso é um retrocesso, e os socialistas devem combater essas ameaças sempre que surgirem. Outra coisa completamente diferente é quando um governo eleito na democracia dos ricos é derrubado pela mobilização dos próprios trabalhadores que o elegeram. Isso é uma medida progressiva, que fortalece a luta, amplia a organização e pode abrir o caminho para uma saída que questione o próprio sistema capitalista.
Brasil será o próximo?
Não podemos, nestas eleições, repetir os erros dos defensores da conciliação de classes que abriram caminho à extrema direita, como na Colômbia e no Peru. É necessário mirar no exemplo de luta do povo latino-americano, enfrentar o imperialismo e os governos capitalistas, construindo junto a isso uma alternativa revolucionária e socialista.
Venezuela e Cuba se submetem a Trump
Para além da série de vitórias eleitorais de Trump no continente, os EUA também impuseram um governo fruto de um ataque militar à Venezuela.
É preciso repudiar a agressão de Trump à Venezuela e se solidarizar com Cuba diante das ameaças de invasão dos EUA. Mas precisamos debater por que, depois do sequestro de Maduro pelos EUA, não houve resistência das massas nas ruas contra o imperialismo. Essa ausência é a resultante histórica do chavismo, cuja ditadura, ao reprimir os trabalhadores em nome do “socialismo”, fez retroceder profundamente a consciência e a capacidade de organização da classe trabalhadora venezuelana.
Delcy Rodríguez foi empossada sob a tutela direta de Washington, mantendo o regime chavista, agora submetido de modo categórico ao imperialismo de Trump, mostrando a farsa do chavismo, que se dizia anti-imperialista.
Em Cuba, Díaz-Canel corre para aprovar reformas que aprofundam o capitalismo restaurado há anos na ilha, abrindo e entregando mais setores aos monopólios internacionais e negociando com o imperialismo de Trump e com a burguesia cubana de Miami para tentar preservar a ditadura castrista e evitar uma invasão dos EUA.

Contra Trump e a extrema direita
Fortalecer a independência dos trabalhadores
A extrema direita precisa ser derrotada. Para fazer isso, não há atalho. Isso não pode significar apoio a governos capitalistas que, em nome da democracia, mantêm os privilégios dos ricos e impedem a mobilização dos trabalhadores. Acreditar no mal menor ou nos governos de conciliação só faz a classe trabalhadora ficar sempre refém de algum setor capitalista e assistir a volta da direita.
É necessário defender os países contra ameaças militares e agressões imperialistas, mas também combater a submissão econômica imposta pelas grandes potências e pelas burguesias nacionais que atuam como suas parceiras.
Por uma verdadeira independência
A verdadeira soberania latino-americana só pode ser construída pela mobilização dos trabalhadores, dos camponeses pobres e dos povos originários contra todas as formas de exploração e dominação. Uma alternativa para a América Latina não virá da escolha entre diferentes projetos capitalistas. Não virá de Washington, Pequim ou dos diferentes setores das burguesias nacionais.
Virá de uma alternativa dos trabalhadores, capaz de romper com a dependência, enfrentar os monopólios e colocar as riquezas do continente a serviço das necessidades dos trabalhadores. O desafio é fortalecer as lutas dos trabalhadores, sua capacidade de organização, tornando-os independentes da burguesia e conscientes de seus próprios interesses, superando assim a conciliação de classes e derrotando a extrema direita e o imperialismo de uma vez por todas.
Só assim será possível fechar as veias abertas da América Latina.