Rebelião popular coloca em xeque o governo de Rodrigo Paz

Lena Souza, de São Paulo
Rebelião popular coloca em xeque o governo de Rodrigo Paz
Marcha encabeçada pela COB contra governo de Rodrigo Paz Foto COB

Direto da Bolívia

A atual rebelião popular na Bolívia é resultado de um longo processo histórico marcado por grandes mobilizações operárias, camponesas e indígenas. As jornadas revolucionárias de 2003 e 2005 derrubaram os presidentes Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa, expressando a rejeição popular ao neoliberalismo e à entrega dos recursos naturais às multinacionais. No entanto, a energia insurrecional foi desviada para a via eleitoral com a chegada de Evo Morales e do MAS ao governo em 2006.

Impulsionado pelo boom das commodities, o governo Evo Morales ampliou a participação estatal na renda dos hidrocarbonetos, implementou programas sociais e aprovou a Constituição de 2009, que reconheceu a Bolívia como Estado Plurinacional. Porém, sem romper com o capitalismo dependente e extrativista, preservou os interesses dos grandes proprietários rurais, do agronegócio, do setor financeiro e das corporações transnacionais. Apesar de a população pobre ter obtido melhorias parciais em suas condições de vida, as reivindicações mais profundas levantadas pelas mobilizações de 2003 e 2005 permaneceram sem solução.

O esgotamento do ciclo de crescimento, a queda das receitas do gás, a crise econômica e as disputas entre Evo Morales e Luis Arce aprofundaram a fragmentação política e social do país, abrindo caminho para a vitória eleitoral de Rodrigo Paz em 2025.

O contexto atual

Embora tenha se apresentado durante a campanha como uma alternativa moderada para superar a crise econômica, Rodrigo Paz rapidamente abandonou esse discurso ao assumir o governo. Seu programa passou a defender a abertura econômica, a aproximação com os Estados Unidos, a liberalização dos mercados e reformas neoliberais favoráveis ao grande capital.

A tentativa de aplicar esse programa encontrou resistência imediata. Em janeiro de 2026, uma mobilização nacional obrigou o governo a revogar um pacote de ajustes econômicos. Mas a inflação, a escassez de combustíveis, os baixos salários e a ameaça de privatização dos recursos naturais continuaram alimentando o descontentamento popular.

A partir de maio, greves, marchas e bloqueios voltaram a colocar trabalhadores, camponeses e indígenas no centro da cena política. O movimento ganhou amplitude com a participação de mineiros, professores, trabalhadores fabris, transportadores e organizações populares. Os bloqueios se espalharam pelos nove departamentos do país, interrompendo as principais rodovias e afetando a circulação de mercadorias e combustíveis. Após 45 dias consecutivos de luta, ainda em curso, a mobilização segue demonstrando uma extraordinária capacidade de resistência e evidenciando que são os trabalhadores e o povo pobre que mantêm o país funcionando.

A nova lei de emergência e a repressão

A crise entrou em uma nova etapa quando o governo aprovou uma legislação que amplia os mecanismos para a decretação de estados de emergência e fortalece os instrumentos repressivos do Estado. Embora Rodrigo Paz ainda não tenha decretado formalmente o estado de exceção, a repressão à marcha de El Alto a La Paz em 12 de junho, as operações para desmontar bloqueios, a perseguição judicial contra dirigentes e a prisão de lideranças sociais demonstram uma escalada repressiva.

Paralelamente, autoridades passaram a estimular setores da população civil a enfrentar os bloqueios, aumentando o risco de confrontos. Organizações de direitos humanos denunciam a criminalização dos protestos e afirmam que a repressão já deixou pelo menos onze mortos e mais de 400 pessoas presas ou processadas.

Apesar disso, os bloqueios seguem ativos em dezenas de pontos do país e continuam sendo o principal instrumento de pressão do movimento.

Os rumos do movimento

Ao completar 45 dias de luta, o movimento entrou em uma nova fase marcada não apenas pelo confronto com o governo, mas também pelo debate sobre seus rumos. Enquanto alguns dirigentes defendem negociações e acordos parciais, importantes setores de base insistem na continuidade e ampliação dos bloqueios até que suas reivindicações sejam atendidas.

Essa disputa atravessa a própria Central Operária Boliviana (COB), convertida em um dos principais espaços de debate sobre o futuro do processo. Cresce a discussão sobre a necessidade de que os trabalhadores, camponeses e povos indígenas não apenas sustentem a mobilização, mas também assumam sua direção política.

A crise atual recoloca uma questão histórica para a Bolívia: quem deve governar o país? Diante do desgaste das instituições, da incapacidade das classes dominantes de oferecer uma saída para a maioria da população e das tentativas de desmobilização, ganha força a perspectiva de que a COB, apoiada pelas organizações operárias, camponesas, indígenas e populares, possa constituir uma alternativa independente dos governos e dos partidos patronais. A palavra de ordem “Todo poder à COB” expressa justamente essa perspectiva: que sejam os próprios trabalhadores e o povo organizado os responsáveis por decidir os rumos da Bolívia.

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