“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança"
(Bom Conselho, Chico Buarque)
Joana Salay e Júlio Anselmo
O Esquerda Online, órgão de imprensa do Semear, corrente interna do PSOL, publicou um artigo de Mauro Puerro defendendo que PSTU, UP, PCB e PCO retirem suas candidaturas e apoiem Lula já no primeiro turno.
O pedido é fundamentado na ideia de que esta “não é uma eleição normal”. O motivo? Segundo o artigo, “a Frente Eleitoral encabeçada por Lula se enfrenta com uma ultradireita neofascista que pode ganhar as eleições”. A partir disso, conclui que, “por mais críticas que se possa ter ao governo Lula, igualá-lo à variante fascista é um erro grave”.
Vamos fazer algumas perguntas. Esperamos que Mauro Puerro responda. Quem ou o que define se esta eleição é normal ou não? Mauro, o Semear ou a realidade?
Vamos à realidade. Esta é a terceira eleição consecutiva que o PT se enfrenta com o que Mauro chama de neofascismo. São quase 10 anos onde a disputa eleitoral é polarizada entre a conciliação de classes petista e a extrema direita bolsonarista. Nesses quase 10 anos, este não foi o normal?
Ou não... a “eleição normal” reside aonde? Nas nuvens? Nas ideias? Apenas na cabeça e na vontade do Semear-PSOL.
Sonham com a volta de uma suposta regeneração do capitalismo, com a volta a uma suposta normalidade que não existe mais. O que desejam é um mundo cor de rosa onde a extrema direita desaperaça e volte o PT a polarizar com o PSDB ou outra alternativa burguesa “democrática”.
Assim vemos que quem menospreza a extrema direita são justamente vocês. Ignoram as profundas bases sociais, econômicas e políticas, que alimentam o fenômeno da extrema direita. Não conseguem relacionar esse processo às disputas interburguesas e interimperialistas em curso no mundo, ao recrudescimento dos conflitos sociais, crises de todo tipo, guerras, militarismo. O capitalismo está indo para a barbárie.
A disjuntiva cada vez mais é socialismo ou barbárie. Buscar numa suposta recomposição democrática do capitalismo, ou esperar que algum setor burguês resolva o problema do enfrentamento com a extrema direita, é preparar a derrota estratégica e trágica dos trabalhadores.
É preciso uma alternativa dos trabalhadores com um programa de ruptura com o capitalismo para derrotar a extrema direita de vez. E é impossível construir isso fortalecendo um campo burguês capitalista como vocês fazem.
Caiam na real. Este é o novo normal do capitalismo decadente e bárbaro que todos os setores da burguesia são responsáveis por criar. Parte da existência do próprio bolsonarismo no Brasil, assim como da extrema direita no mundo, é responsabilidade por décadas de promessas não cumpridas, administrações de austeridade e decepções políticas promovidas também pelas organizações que se diziam de esquerda. O governo do PT é o partido que mais governa desde o fim da ditadura. É também responsavel pela decadência capitalista do país. Depois desse período, ajudou não a avançar a classe trabalhadora mas a retroceder a sua organização, sua capacidade de luta e sua consciência da classe.
O voto em Hertz ajuda Bolsonaro?
O artigo parte da premissa equivocada de que quem não vota em Lula no primeiro turno estaria “esperando o fascismo acontecer”. Mas como, exatamente, o voto em Hertz Dias ajudaria Bolsonaro?
O voto em Hertz é um voto em um programa revolucionário e socialista apresentado abertamente durante toda a campanha. É o voto na estatização dos setores estratégicos do país e na defesa de um governo dos trabalhadores, sem capitalistas, apoiado na auto-organização da classe trabalhadora. É também um voto em uma candidatura que se posiciona na oposição de esquerda ao governo Lula e na linha de frente da luta contra o bolsonarismo.
Convencer um trabalhador a apoiar esse programa ajudaria a extrema direita de que maneira?
Não seria o contrário? Não fortalece a direita apoiar quem criou e aplica o arcabouço fiscal, governa em aliança com o Centrão, promove privatizações e entrega o petróleo e as terras raras do país às multinacionais?
Para os companheiros, é a candidatura de Hertz Dias que ajuda Bolsonaro, mesmo sendo o Lula o candidato que disse que pintou uma "indústria química" com Trump. Não há dialética que explique.
Além disso, a tese de que as candidaturas à esquerda ao PT podem entregar a eleição à extrema direita exige demonstração. Se não existisse essas candidaturas os votos no PT cresceriam? Pelo contrário, o espaço encontrado por essas candidaturas nasce justamente de uma descrença, ainda minoritária, no projeto do PT que encontra na candidatura de Hertz Dias uma alterativa à esquerda para a sua insatisfação com o PT, por um lado, e um não acordo com o projeto capitalista da extrema direita, por outro.
Essa insatisfação que impede que esses votos vão para o PT, não é criada por nós e não sumiria com a não-existência da nossa candidatura. Ela resulta das experiências concretas dos trabalhadores com os governos petistas. O próprio pedido para a retirada da candidatura é uma demonstração que o PT tenta matar a sede com água salgada, ao invés de encarar um mar de descontentamento promovido por seu próprio projeto político.

Derrotar o bolsonarismo exige independência política
Não negamos o peso do bolsonarismo e a necessidade de derrotá-lo. Apenas dizemos a verdade: nenhuma vitória eleitoral do Lula é capaz de garantir isso.
Ao realizar um governo burguês, aplicar ataques aos trabalhadores e frustrar novamente as expectativas populares, Lula pode aprofundar a desmoralização e criar condições ainda mais favoráveis ao crescimento do bolsonarismo. Essa dinâmica pode produzir uma correlação de forças extremamente negativa e oferecer munição para novas aventuras autoritárias, sobretudo se setores importantes da burguesia e do imperialismo decidirem por isso.
Não, o bolsonarismo e o petismo não são iguais. São diferentes, mas sendo dois projetos diferentes, ambos se localizam nos marcos do capitalismo.
Diante de qualquer tentativa golpista de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou Trump, nosso programa é nítido: defenderemos a mais ampla unidade de ação para derrotá-la. Mas, para que a classe trabalhadora tenha força para lutar, compreenda a dimensão do perigo e se disponha a enfrentar os setores autoritários, é indispensável preservar sua independência política.
Até para isso é preciso superar o petismo. Vejam a Venezuela, vejam Cuba. Há ataques militares do imperialismo, há ameaças de intervenção, e os trabalhadores, em sua maioria, desgraçadamente não lutam contra isso, pelo contrário, veem com bons olhos diante do desgaste dos governos e regimes que se dizem de esquerda. De quem é a responsabilidade?
Para enfrentar isso, é preciso classe operária independente, na vanguarda, mobilizada contra o imperialismo e a burguesia nacional
A pergunta que deveria ser feita é outra: por que, em vez de apoiar o governo, vocês não combateram as medidas do PT que produziram e aprofundaram esse descontentamento? Ao respaldarem o governo mesmo quando ele aplica o arcabouço fiscal, mantém privilégios dos grandes empresários, promove privatizações e frustra as expectativas dos trabalhadores, vocês contribuem para que a indignação popular seja identificada com a oposição de direita. O problema, portanto, não está nas candidaturas à esquerda que procuram dar uma saída a esse descontentamento, mas na política de apoiar um governo que o alimenta e deixa o caminho aberto para que a extrema direita tente capitalizá-lo.
Se é hora de fazer alguma coisa, é do Semear, o PSOL e as demais organizações que se reivindicam socialistas, revolucionárias e de esquerda romperem com o governo Lula e com seu projeto de conciliação de classes. É hora de ajudarem a construir uma alternativa estratégica, socialista e revolucionária para o Brasil.
Ou então, já saberemos qual será o discurso numa próxima eleição, caso tenha, “vote e apoie algum mal menor da vez”, enquanto isso seguem alimentando as condições de desenvolvimento do mal maior.