A resposta diante da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno veio das ruas. Grandes manifestações contra Flávio Bolsonaro tomaram conta do país. Os estudantes tomaram a dianteira realizando assembleias, atos e manifestações em universidades e escolas. Sindicatos, movimentos sociais, organizações da juventude e trabalhadores se juntaram à luta.
Hoje há um importante levante de mobilização online e nas ruas, que aponta corretamente a necessidade de derrotar eleitoralmente Flávio Bolsonaro, mas não são manifestações controladas pelo PT, PSOL ou pelas burocracias dos movimentos. Há muitas convocações feitas pela base e auto-organização em vários níveis. Uma verdadeira efervescência política de milhões de trabalhadores, jovens e estudantes que não só se mobilizam como também debatem um projeto de país.
Flávio Bolsonaro é uma desgraça para os trabalhadores
Flávio Bolsonaro representa um projeto de extrema direita completamente subordinado a Trump, ampliando a submissão do Brasil aos Estados Unidos ao ponto de virarmos protetorado. Isto aprofundaria a pobreza e miséria do povo brasileiro ao garantir a entrega geral e completa sem contrapartida das nossas riquezas.
Flávio tentará criar condições para desmontar as liberdades democráticas. Quer o controle absoluto sobre as instituições e o silêncio de qualquer oposição, como já fizeram Bukele e Orbán e como tenta fazer Trump atualmente. O objetivo não é apenas permanecer no poder sem questionamento. Seu autoritarismo serve também para criar melhores condições para impor ataques contra os direitos dos trabalhadores, num contexto em que setores da burguesia exigem um nível tão profundo de ataques que flertam com um regime mais duro. Esse projeto também aprofundaria os ataques contra as mulheres, negras e LGBTI’s.
Ou seja, uma vitória da extrema direita daria melhores condições para Flávio impor medidas autoritárias que visam dificultar a organização e a luta dos trabalhadores. Claro que tudo dependeria da resposta dos trabalhadores. Defender as liberdades democráticas não significa alimentar ilusões neste regime dos ricos, mas preservar melhores condições para que nossa classe possa se organizar, fazer greves e mobilizações.
Impor uma derrota eleitoral a esse projeto no dia 25 é importante. Parte dos trabalhadores que votaram em Bolsonaro o fez pelo desgaste com Lula, que faz um terrível governo capitalista. Essa revolta é compreensível, mas é um erro acreditar que Bolsonaro atenderá aos interesses dos trabalhadores. Por isso, contra Bolsonaro e seu projeto autoritário, daremos um voto crítico em Lula sem dar nenhum apoio político ao governo.
Hoje é melhor virar voto para o Lula se for a partir de críticas ao governo. Mas nosso voto crítico vai bem além disso, pois identificamos o próprio governo do PT como parte do problema, por isso defendemos um programa de oposição de esquerda para superá-lo pela esquerda.
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Por que o voto em Lula deve ser crítico?
1 – Lula governa para a burguesia
O voto é para impedir Bolsonaro de ganhar. É crítico porque Lula não representa os interesses dos trabalhadores. Não revogou a reforma da Previdência de Bolsonaro ou a reforma trabalhista de Temer. Aprovou o arcabouço fiscal e governou a serviço dos grandes capitalistas, do mercado financeiro e das instituições do Estado. Não garante soberania ao negociar a entrega das terras raras com EUA, China e Europa.
Mesmo medidas progressivas, como o aumento de 15% do Bolsa Família e a isenção do Imposto de Renda, são completamente insuficientes e não mudam estruturalmente a vida dos trabalhadores. Enquanto isso, os salários continuam baixos, o emprego é precário, o custo de vida pesa e serviços públicos fundamentais seguem precarizados.
2 – Um novo governo Lula irá atacar os trabalhadores
Lula irá dar continuidade à conciliação com os grandes empresários. O ministro da Fazenda já anunciou a necessidade de um novo ajuste fiscal em 2027. Ao mesmo tempo, segue negociando a entrega das terras raras, mantém um Plano Safra bilionário para o agro, acabou de leiloar o petróleo e seguirá atacando os trabalhadores para garantir todas as benesses à burguesia. Se vencer, será preciso luta dos trabalhadores contra medidas que ataquem direitos, serviços públicos e salários.
3 – Eleger Lula não derrota a extrema direita
Outro motivo é que a extrema direita não é derrotada pela vitória eleitoral de Lula. Basta dizer que, depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, com quatro anos de governo Lula, a extrema direita voltou em 2026 ainda mais forte e ampliou sua influência política.
Isso não aconteceu por acaso. A política de conciliação de classes não elimina as bases sociais e materiais sobre as quais a extrema direita cresce. O governo preserva o poder econômico dos grandes capitalistas e mantém intactos os principais mecanismos de exploração. A frustração produzida por essa política volta a ser explorada pela extrema direita, que apresenta respostas reacionárias e às vezes até absurdas para problemas reais.
4 – Governo Lula leva os trabalhadores a confiar na burguesia e nas instituições
Ao mesmo tempo, Lula desarma a organização independente dos trabalhadores e pede confiança no governo, no Congresso e nas instituições. Faz alianças com setores da própria direita, como União Brasil e MDB, que tiveram ministérios no governo Lula e hoje estão com Flávio Bolsonaro.
Nenhum apoio político ao governo Lula. É preciso superar a conciliação do PT
A tarefa é derrotar Bolsonaro e, ao mesmo tempo, enfrentar e superar pela esquerda o próprio projeto do PT, se quisermos derrotar de verdade a extrema direita e garantir os interesses dos trabalhadores.
Muitas organizações de esquerda vêm fazendo o voto em Lula sem crítica, o que se transforma inevitavelmente em apoio político. Qualquer tipo de apoio político ao PT é um erro importante. Ainda mais neste momento, em que há certo desgaste do governo pelas péssimas condições de vida, confundir voto com apoio ao governo Lula não ajuda sequer a disputar voto contra o bolsonarismo. Muito menos ajuda nos grandes desafios da classe trabalhadora de derrotar a extrema direita, superar o PT e fortalecer um programa que atenda às suas necessidades.
A política do PT aprisiona os trabalhadores à conciliação com a burguesia. Pede voto para supostamente derrotar a extrema direita, governa junto com setores capitalistas e mantém os problemas estruturais do país. Depois, a extrema direita utiliza a frustração social para crescer ainda mais. Assim se forma um círculo vicioso perverso que precisa ser rompido. Para isso, é preciso superar o projeto de conciliação de classes do PT que aprisiona os trabalhadores.
Por tudo isso, o voto tem de ser crítico.
Como derrotar a extrema direita bolsonarista pra valer?
Não se derrota a extrema direita apenas com eleições. É preciso ampliar essa mobilização atual, transformando-a numa força social independente, capaz de enfrentar os ataques dos capitalistas, lutar pelas reivindicações dos trabalhadores e construir outro projeto de país.
A disposição de enfrentar Bolsonaro não pode ser transformada simplesmente em apoio ao governo Lula. Precisa servir para aumentar a organização independente dos trabalhadores e da juventude.
É necessário fortalecer assembleias, sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis, além de comitês, plenárias e formas de coordenação construídas pela base. A luta contra Bolsonaro precisa se combinar com as reivindicações concretas da classe trabalhadora: emprego, salários, redução da jornada sem redução salarial, saúde e educação públicas, combate às privatizações, defesa das liberdades democráticas e enfrentamento ao imperialismo.
Para nós, a batalha eleitoral deve estar combinada e subordinada à ampliação da luta e a serviço do fortalecimento da mobilização e organização dos trabalhadores. Quanto mais forte for a luta agora e quanto maior for sua independência política em relação ao PT, melhores serão as condições para derrotar Bolsonaro e também para enfrentar o próximo governo.
Mas tampouco isso basta. A partir da mobilização e da batalha pela independência política da classe trabalhadora, é necessário também fortalecer um programa socialista capaz de enfrentar o sistema.
HERTZ DIAS | Direto do ato em São Luís no Maranhão: 'Contra Bolsonaro capacho do Trump, voto crítico no 13 e nenhum apoio ao governo Lula!' pic.twitter.com/hENobEEqEO
— Opinião Socialista (@opsocialista) October 12, 2026
Um programa socialista para derrotar o bolsonarismo e superar o PT
Para derrotar o bolsonarismo é preciso atacar as bases do sistema capitalista. Para fazer isso é preciso superar o PT, que defende um programa que tenta aperfeiçoar o sistema como se isso fosse possível.
Esse programa deve partir da estatização dos setores estratégicos da economia sob controle dos trabalhadores. Petróleo, mineração, energia, infraestrutura e sistema financeiro não podem continuar subordinados ao lucro privado.
Mais de R$ 700 bilhões em lucros produzidos pelos trabalhadores nesses setores poderiam ser direcionados para reindustrializar o país, desenvolver tecnologia, garantir empregos de qualidade, aumentar salários dobrando o salaŕio mínimo e ampliar os investimentos em saúde, educação, moradia, transporte e serviços públicos, assim como revogar as reformas trabalhistas e o arcabouço fiscal.
Nenhuma transformação desta dimensão será entregue voluntariamente pelos grandes empresários, banqueiros e multinacionais, que hoje dominam todo o aparelho de Estado.
Por isso, um programa socialista não pode ser reduzido a uma lista de propostas executadas por dentro das instituições atuais. Sua realização depende da mobilização e da organização da classe trabalhadora, da ruptura com a burguesia e da construção de um poder dos próprios trabalhadores baseado na democracia dos trabalhadores e em sua própria auto-organização.