Na convenção da chapa Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), fomos surpreendidos ao ver Luciano Bivar, hoje filiado ao MDB, mas que foi presidente do PSL em 2018.Foi opartido que lançou Jair Bolsonaro à Presidência da República e abrigou toda a nata do bolsonarismo, formando uma grande bancada de deputados e senadores.
Luciano Bivar foi, à época, o grande articulador político da candidatura de alguém que era visto como um pária da política brasileira, mas que, graças ao PSL, conseguiu eleger-se presidente do Brasil. Agora, o PT anuncia Bivar em sua chapa, colocando-o como suplente de Humberto Costa, que disputa uma vaga no Senado por Pernambuco. Seria cômico se não fosse trágico.
O PT em Pernambuco, além de não fazer oposição ao governo Raquel Lyra — vale lembrar que todos os deputados estaduais do partido integraram a base aliada da governadora, gerando inclusive disputas internas, com uma ala pró-Raquel Lyra e outra, hoje majoritária, pró-João Campos —, agora dá mais um passo na política da conciliação.
Muitos podem até se espantar com a indicação de Luciano Bivar para a suplência, mas esse é o jogo do PT: o vale-tudo eleitoral, quejogamos trabalhadores e as trabalhadorasnum fosso cada vez mais profundo, sem qualquer projeto de transformação social ou de construção de uma alternativa para o Brasil. O partido prefere jogar suas cartas com a burguesia e os grandes capitalistas, em nome da chamada "governabilidade", chocando, assim, o ovo da serpente da extrema direita, que segue disputando a consciência da classe trabalhadora.
A conciliação de classes é um beco sem saída
A conciliação de classes é um beco sem saída. Não existe alternativaconcretacapaz de transformar a realidade e disputar o futuro das mulheres, da população LGBTQIA+, dos negros e negras, dos povos indígenas e da juventude trabalhadora que passe pela conciliação de classes.
O PT já não tem mais nada a oferecer à classe trabalhadora, nem no Brasil nem em Pernambuco, senão o fisiologismo eleitoral mais tacanho e rasteiro. A política do PT em Pernambuco resume-se a reeleger Humberto Costa para o Senado, mas não disseram quais são os custos dessa estratégia.
Isso significa apoiar João Campos e seu vice de direita, Carlos Costa, bem como todo o seu projeto privatista, como vem fazendo no Recife com parques, UPINHAS e creches, além de desapropriar trabalhadores de suas casas, como ocorreu em Brasília Teimosa e na comunidade Nova Esperança.
João Campos também não se opôs à privatização da Compesa, um processo que começou ainda no governo de seu pai, em 2013, e que Raquel Lyra levou adiante. É nesse projeto para o governo de Pernambuco que o PT está apostando.
O PT segue fazendo o jogo da direita ao colocar o projeto dos trabalhadores a serviço da burguesia pernambucana. E, se o preço for abrigar inclusive setores da direita e da extrema direita, que assim seja.
Mas a questão que fica é: é dessa forma que vamos derrotar a extrema direita?
Chocando o ovo da serpente: O PT alimenta a extrema direita
A ascensão da extrema direita no Brasil não pode ser compreendida apenas pelo crescimento de figuras como Jair Bolsonaro ou pela atuação de seus partidos. Ela também é resultado da política de conciliação de classes levada adiante pelo PT durante décadas. Ao governar em aliança com setores da burguesia, com partidos fisiológicos e até com figuras que posteriormente integrariam o bolsonarismo, o PT contribuiu para fortalecer aqueles que dizia combater.
Foi assim em nível nacional. Durante anos, o PT governou ao lado de partidos como MDB, PP, Republicanos, PSD, União Brasil e tantos outros que hoje compõem, em maior ou menor medida, a base política da direita brasileira. Muitos dos parlamentares, empresários e lideranças que sustentaram Bolsonaro passaram antes pelos governos petistas, ocupando ministérios, estatais e espaços de poder. Em vez de mobilizar a classe trabalhadora para enfrentar a direita, o PT optou por administrá-la, legitimá-la e dividir o governo com ela.
Essa política produziu um efeito perverso. Enquanto os trabalhadores eram chamados a confiar nas instituições e nos acordos entre os de cima, a extrema direita ocupava as ruas, disputava a consciência popular e se apresentava falsamente como alternativa ao sistema político. O resultado foi o fortalecimento de um setor reacionário que hoje segue vivo e organizado.
Em Pernambuco, essa lógica se reproduz. O PT não constrói uma oposição consequente aos governos que aplicam políticas contra os trabalhadores. Ao contrário, adapta-se às alianças eleitorais de ocasião. A indicação de Luciano Bivar para a suplência de Humberto Costa sintetiza isto. Bivar não é um personagem qualquer. Foi o presidente do PSL que viabilizou a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 e teve papel decisivo na organização da legenda que impulsionou o bolsonarismo em todo o país. Não se trata apenas de um adversário político do passado, mas de alguém que ajudou a construir a principal força da extrema direita brasileira.
Ao aceitá-lo em sua chapa, o PT envia um recado claro: em nome da vitória eleitoral, qualquer aliança é aceitável. O problema é que essa política não derrota a extrema direita; ao contrário, lhe fortalece pois transmite à população a ideia de que as diferenças entre esses projetos são negociáveis e pior chama a confiar em figuras e lideranças que foram linha de frente no projeto reacionário e genocida de Bolsonaro no poder que levou mais700 mil brasileiros a morte na pandemia com suas políticas anti-vacina.
Essa política gera frustração entre amplos setores da população. Quando um partido que historicamente se apresentou como representante dos trabalhadores passa a governar junto com empresários, banqueiros e políticos da direita, abre espaço para que a extrema direita apareça, demagogicamente, como "antissistema". Mesmo defendendo um programa profundamente reacionário, conservador e favorável aos ricos, ela consegue explorar o desgaste produzido pela política de conciliação.
Não é por acaso que a extrema direita continua tendo influência em Pernambuco e no Brasil. Ela se alimenta justamente das contradições produzidas por governos que prometem mudanças, mas administram os interesses dos mesmos grupos econômicos de sempre. Enquanto o PT insiste em acordos com setores da burguesia e até com antigos dirigentes do bolsonarismo, fortalece a descrença na política e ajuda a criar o terreno onde o discurso reacionário prospera.
Derrotar a extrema direita exige exatamente o contrário dessa estratégia. Não será através de acordos com seus antigos aliados nem incorporando figuras que ajudaram a construí-la. A única alternativa capaz de enfrentar o bolsonarismo de forma consequente é a independência política da classe trabalhadora, organizando a luta contra os ataques dos governos e contra os interesses dos grandes empresários que financiam tanto a direita tradicional quanto a extrema direita.
Quem choca o ovo da serpente não é apenas quem faz discursos de ódio. Também o faz quem, em nome da governabilidade e das alianças eleitorais, reabilita seus dirigentes, legitima seus partidos e subordina o projeto dos trabalhadores aos interesses da burguesia. É essa política que precisa ser superada para que a extrema direita seja efetivamente derrotada.
O campo do lulismo e a esquerda que precisamos!
Já são 38 anos desde a derrota do regime militar no Brasil e da instauração do regime democrático com a Constituição de 1988. Nesse período, o PT governou o país por 18 anos e agora este regime vive um processo de decadência política, enquanto a extrema direita surge como expressão da crise que o país atravessa.
O campo do lulismo tenta salvar o que resta da democracia dos ricos, tornando-se hoje o principal defensor da atual ordem política. Trata-se de um campo político conservador, na medida em que busca preservar o sistema político vigente. Embora se apresente, no discurso e na disputa política, como um campo de esquerda, na prática o PT negocia os interesses da classe trabalhadora e as pautas dos movimentos de mulheres, negros, indígenas e LGBTQIA+ para atender aos interesses do agronegócio e da burguesia brasileira, subordinada ao projeto imperialista dos Estados Unidos.
É um campo que aposta todas as suas fichas no sistema eleitoral e no Judiciário, atuando para conter a mobilização dos trabalhadores e dos movimentos sociais em nome da governabilidade e da chamada correlação de forças, expressão que se tornou quase um mantra dentro da esquerda. Na prática, porém, esse discurso serve para justificar alianças políticas cada vez mais fisiológicas.
O campo do lulismo e do petismo precisa ser superado, pois seu projeto político se torna cada vez mais limitado e coloca uma corda no pescoço dos trabalhadores, que passam a agir movidos pelo medo, e não pela construção de uma consciência política capaz de transformar a sociedade. A lógica apresentada é sempre a mesma: se Lula, com Alckmin e todos os seus aliados, não vencer, Bolsonaro voltará. Em Pernambuco, o discurso se repete: se Humberto Costa, com Luciano Bivar e todos os seus aliados, não vencer, a extrema direita crescerá.
Assim, seguimos reféns de uma política que coloca os trabalhadores entre a burguesia e a extrema direita. A esquerda de que precisamos deve ir além da conciliação de classes. Precisa apostar na transformação da sociedade, construindo uma nova correlação de forças por meio da mobilização independente da classe trabalhadora, e não por alianças com setores da direita.
Essa esquerda precisa ir além das palavras e apresentar, na prática, um programa capaz de enfrentar as desigualdades estruturais do Brasil, rompendo com os interesses da burguesia brasileira, herdeira de uma estrutura social marcada pela escravidão, que mantém milhões de pessoas submetidas à pobreza, à violência, à insegurança e aos impactos das mudanças climáticas.
Para superar o PT e o campo do lulismo não existe atalho!
Pré-candidatos a deputado federal e estadual do PSOL em Pernambuco, que se posicionaram contra a federação com o PT, comemoram o fato de ela não ter sido concretizada, argumentando que, caso isso tivesse ocorrido, o partido estaria hoje ao lado de Luciano Bivar na mesma chapa.
Entretanto, o PSOL continua integrando a base de apoio ao governo Lula em nível nacional. Em Pernambuco, o próprio Ivan Moraes, pré-candidato ao governo estadual pelo partido, afirmou que só lançou sua candidatura porque não haveria uma candidatura competitiva da extrema direita na disputa. Segundo essa posição, caso existisse tal candidatura, a alternativa seria apoiar outro nome para impedir seu avanço.
Além disso, o partido lançou apenas uma candidatura ao Senado, a do professor Paulo Rubem, da Rede Sustentabilidade. A vereadora Jô Cavalcanti retirou sua pré-candidatura ao Senado afirmando que o objetivo era contribuir para a eleição de Humberto Costa.
PT e PSOL permanecem politicamente vinculados em diversos aspectos. Mesmo os setores que se apresentam como esquerda radical dentro do PSOL concentram sua atuação na disputa do campo lulista pela esquerda. A construção de um campo político verdadeiramente de esquerda e socialista passa pela ruptura com o lulismo e pela constituição de uma oposição de esquerda ao governo Lula. Para isso é preciso ter independência em relação ao governo e às alianças da frente ampla. Algo que para o PSOL hoje é inviável por ser base de apoio ao governo.
Por isso, em Pernambuco estamos lançando a pré-candidatura de Guilherme Fonseca e Valéria Félix ao governo do estado para fortalecer um campo da esquerda radical em Pernambuco.Radical não só nome, mas no programa e na independência política para nos juntarmos a Hertz Dias na pré-candidaturaàPresidência do Brasil demarcando o campo de oposição de esquerda ao governo Lula que combate de forma consequente a extrema direita sem se aliaraela e fazer conchavos.