“As mulheres Amazigh são artistas. Criam e usam símbolos tornando o próprio corpo feminino parte dessa identidade” - (Becker, C - Têxteis e Vestuário em Marrocos, Artes Africanas, 2006, p. 42-55)
No artigo anterior vimos um breve resumo da história do Marrocos, a importância da luta dos povos originários Amazigh, o papel das mulheres como guardiãs da memória e a afirmação dessas identidades como forma de resistência. Somente no Marrocos as comunidades Amazigh somam cerca de 60% da população e apesar das recorrentes políticas oficiais de invisibilização e tomada de terras nativas, carregam no nome - “povo livre” - a essência de sua tradição de luta e orgulho ancestral.
Mesmo nas grandes ondas migratórias – a exemplo dos árabes no século XIII que intensificaram a presença do Islã na região - muitos grupos que viviam em áreas montanhosas ou nas franjas desérticas mantiveram seus próprios idiomas Tamazight, o que até hoje é fundamental para a defesa de seus direitos. Também vimos, a partir dos estudos linguísticos de Fátima Sadiqi, o quanto as mulheres utilizam a história oral para garantir a existência das línguas maternas originárias e o respeito adquirido a partir desse papel central, principalmente nas comunidades rurais.
Grafismos & simetrias: tecendo metáforas
“Em algumas regiões do Marrocos, as tecelãs literalmente se posicionam sobre os fios da urdidura e os rolos do tear antes de serem erguidos, simbolizando seu nascimento. O tecido então passa pela juventude, maturidade e velhice à medida que é produzido. As mulheres têm o poder de dar vida a um tecido, e quando uma tecelã o termina, ela o corta do tear e diz-se que ele morre.” (Becker, 2006, 44)
Em territórios cada vez mais afetados pelos deslocamentos forçados - seja pela desapropriação das terras ou desastres climáticos - a continuidade das mulheres enquanto responsáveis pela preservação dessas comunidades adquire significado vital e se manifesta em diferentes formas artísticas cujas técnicas elas dominam, seja na cerâmica, pintura corporal, tecelagem ou poesia oral.
Segundo pesquisas de Becker em diferentes regiões do Marrocos, esse papel de geradoras e mantenedoras de vida aparece de forma recorrente não somente no ritual de produção do tecido mas em outras simbologias ligadas à fertilidade nos desenhos e materiais escolhidos nas criações cotidianas.
Especificamente na arte têxtil das comunidades rurais, cada produção é uma peça única onde as tecelãs imprimem sua assinatura particular repleto de significados, impressões e sentimentos. Nas obras há alguns padrões comuns a cada região - grafias e cores a partir dos vegetais disponíveis, entre outros – nas quais elas dominam todo o processo de fabricação, gerando metaforicamente uma nova vida - penteiam, fiam e tingem a lã que tecem em teares verticais.
Em muitas localidades acredita-se que o tear e o ato de tecer tenham baraka (bênção) sendo a própria lã ligada à fertilidade. Em relação aos motivos dos desenhos, Becker ressalta a profundidade filosófica das representações, através de enigmas e metáforas, associações entre objetos do cotidiano e coisas encontradas no ambiente natural.
Outra característica - comum a diferentes culturas no continente africano - envolve as múltiplas relações entre matemática e arte como linguagem que sintetiza modos de ver o mundo. Assim, os desenhos geométricos e simétricos expressam valores civilizatórios africanos - circularidade, complementaridade, ancestralidade, oralidade, comunitarismo e energia vital, entre outros.
Na arte das mulheres Amazigh todo padrão geométrico é uma narrativa. Nela, a simetria codifica conhecimentos cuja forma tem um propósito específico em que enigmas e mensagens, além da beleza estética, conectam tudo o que existe, o material e o imaterial.
Tizrrarin & Rap: Poesia oral no centro da aldeia e da rua
Sker mayd skern imezwura/
Faça o que os primeiros fizeram.
Provérbio Amazigh
Em muitas comunidades nômades e seminômades cabe às mulheres a guarda do território.
Segundo a pesquisadora Katherine Hoffman tal vigilância
“é constantemente narrada por meio dos animados tizrrarin . Os tizrrarin, dísticos a cappella, são uma parte importante das tradições orais das mulheres berberes. São apresentados sem acompanhamento musical ou percussivo e frequentemente convidam à participação do público por meio de versos repetitivos de chamada e resposta”(Etnomusicologia, Vol 46, 2002, 513).
A autora destaca, então, algumas características específicas do gênero musical. Além do entretenimento, serve para comunicar notícias sobre a migração e viagens de familiares, eventos sociais futuros, como casamentos ou festivais e conectar membros dispersos de sua comunidade, apesar dos desafios da separação geográfica.
“A importância particular dos versos para suas comunidades locais é ilustrada pelo fato de que esse gênero nunca foi comercializado para um consumo mais amplo, como muitos outros em festivais de música e hotéis turísticos” (Hoffman, p. 514).
Diferentemente da matriz européia tradicional - cujo conceito de Arte se tornou ao longo do tempo obsessivamente classificável em subdivisões e especialidades - as manifestações artísticas Amazigh se entrelaçam e emergem do cotidiano, rompendo fronteiras entre gêneros. Assim, as artes visuais se comunicam com as verbais e a poesia oral das mulheres é "tecida" enquanto a tecelagem se faz como uma performance.
Dentre a diversidade de tradições de poesia oral cantada no Marrocos, no estudo de caso de Hoffmann - comunidades do sudoeste do país - compor é considerado uma responsabilidade e espera-se que toda garota seja uma poeta. Apesar dos evidentes entraves do machismo cotidiano e das condições adversas da vida, ostzarrinocupam o centro da aldeia e comportam tanto canções de protesto social quanto críticas com doses de ironia aos arranjos de casamentos.
Exemplo disso está na crítica exposta nesta canção após o Governo Marroquino ter pressionado comunidades para que abrissem uma estrada de Tétouan à Melilla, no norte do país,
“A-breth n-tumobil hudm-inth a breth-n-kum”
Os trabalhadores devem fazer sua própria estrada
NoTzarrin, assim como em outros tipos de canções populares criadas por mulheres, se a forma da poesia oral se baseia em versos poéticos pré-existentes transmitidos de geração em geração, é na improvisação a partir do cotidiano que a narrativa ganha força.
Surge, então, essa indagação: será o Tzarrin um dos antepassados do Rap?
Espécie de versão contemporânea e urbana de antigos cânticos africanos, no outro lado do Atlântico - Rhythm and Poetry/Ritmo & Poesia – tem sua história vinculada à juventude negra no continente americano, desde os bailes na periferia da Jamaica nos anos 1960 até se tornar um dos elementos da cultura hip-hop no Bronx/Nova Iorque nos anos 1970.
Em nova travessia transatlântica toma as ruas de grandes cidades marroquinas - Casablanca, Rabat, Fez e Marrakesh - nos anos 90 e ganha novo impulso na Primavera Árabe nos anos 2010 onde entram em cena as jovens urbanas, muitas cujas origens familiares remetem às comunidades originárias.
Ob.: Desde final de 2025 muit@s rappers têm sido presos no Marrocos por defenderem as manifestações da juventude marroquina por melhores condições de vida e contra a gastança da Monarquia com os preparativos para a Copa do Mundo de 2030. Conhecido como Movimento GenZ212 (em alusão ao número 212 usado para acessar a rede social Discord), esse grupo anônimo levou milhares às ruas no segundo semestre de 2025 após a morte de 08 mulheres no pós-parto em hospital de Agadir.
Entre tantas rappers comoSoultana, Khtek, Widad Mjama, Rita L’Oujda, SnowFlake, Krtas Nssa, Manal -em comum, rimas abertamente feministas e rebeldes.
Khtek- Houda Abouznasceu em 1995 e transformou o termo considerado ofensivoKhtek(Sua irmã) em identidade feminista. Transforma sua herança Amazigh em letras que defendem também as causas Lgbtqia+. Sua música KickOff, lançada em 2020 é uma crônica do dia-a-dia de uma geração de jovens,
“Sou durona, sobrevivi à guerra, às drogas, à loucura e ao amor/ Muitas coisas não deram certo porque somos mulheres”
Widad Mjama, nasceu em 1983 e sua música mistura sons específicos a partir de sua imersão em estudos sobre percussão africana e o mundo dos griôs da África Ocidental.
Forma com o tunisiano Walid Selim o Coletivo de rapN3rdistane através do Projeto Aïta Mon Amour divulga a tradição oral das mulheresshikhat, que cantamAïta, lamento que tem origem e influências árabe marroquina e Amazigh.
No caldo de culturas e contradições dos centros urbanos marroquinos, na abundância de influências musicais e nas lutas ancestrais latentes é que o futuro se faz presente.