Gosto de futebol. Não apenas como quem aprecia um espetáculo, mas com a adesão de quem reconhece no jogo algo de genuinamente popular — a capacidade de reunir países inteiros em torno de uma bola, de fazer circular uma emoção que atravessa classes, gerações e línguas. A Copa do Mundo carrega isso de forma amplificada: é o maior evento esportivo do planeta, e em 2026 chegou à sua edição mais ambiciosa, com 48 seleções, 104 partidas e três países-sede. Há algo realmente belo nisso, e seria desonesto negá-lo para fazer política.
Mas é precisamente porque amamos o futebol que precisamos dizer o que esta Copa também é: um espelho das relações de poder que organizam o mundo capitalista em sua fase imperialista. E o caso da seleção iraniana tornou esse espelho impossível de ignorar.
A cronologia de uma humilhação
A sequência de fatos que envolveu o Irã desde o sorteio até os primeiros dias de competição não tem precedentes na história do torneio. Trata-se de uma política sistemática de degradação aplicada a uma seleção nacional qualificada por mérito esportivo.
Os EUA e o Irã não mantêm relações diplomáticas há mais de 40 anos. Quando os Estados Unidos apresentaram sua candidatura a sede da Copa, em 2018, isso era de conhecimento geral. Preocupada com o primeiro governo Trump e suas políticas de imigração cada vez mais restritivas, à época a FIFA exigiu garantias formais. O governo americano respondeu comprometendo-se a garantir acesso “sem discriminação” a “atletas, oficiais e torcedores de todos os países do mundo”. Não que tenha sido uma concessão, já que o regulamento da FIFA para países-sede é explícitos: os procedimentos de visto devem ser aplicados de forma não discriminatória. E assim, ignorando todas as contradições, o torneio foi entregue a um país que é inimigo declarado de outro participante.
Não deu outra, em novembro de 2025, os Estados Unidos se recusaram a conceder vistos ao presidente da Federação Iraniana, ao técnico e a outros dirigentes, impedindo a delegação de participar da cerimônia do sorteio em Washington. A entidade enviou um protesto formal à FIFA alegando que a recusa tinha motivações puramente políticas e violava o princípio de neutralidade exigido pela FIFA em suas competições. Ninguém ousou contestar.
Com o início da Copa se aproximando e a guerra dos EUA contra o Irã em curso, os obstáculos se multiplicaram. Cerca de 15 membros da Federação Iraniana tiveram seus vistos negados, incluindo funcionários responsáveis pelas operações da seleção. A delegação foi forçada a instalar sua base de treinamentos em Tijuana, no México, sem acesso ao território americano onde jogaria.
A poucos dias do torneio, a FIFA revogou a distribuição de ingressos destinada aos torcedores iranianos para as três partidas da fase de grupos. A federação iraniana, que havia iniciado as vendas, foi forçada a cancelar os bilhetes, prejudicando centenas de torcedores que já tinham planos e pacotes de viagem comprados. Cada federação participante tem direito a 8% da capacidade dos estádios em seus jogos, mas esse direito que foi simplesmente suprimido. A medida não atingiu apenas os torcedores. Ela afetou diretamente as condições esportivas da competição.
Em qualquer campeonato do mundo, a presença da própria torcida é considerada uma vantagem legítima e parte integrante do espetáculo. O chamado "fator casa" é uma realidade reconhecida por jogadores, técnicos e dirigentes. O apoio vindo das arquibancadas influencia o ambiente da partida, fortalece emocionalmente a equipe e ajuda a equilibrar a disputa. Ao privar a Seleção iraniana de parte significativa de sua torcida, a FIFA não apenas restringiu o direito de circulação de seus cidadãos, ela alterou as condições nas quais a equipe disputaria seus jogos.
Depois da estreia em Los Angeles — com um empate em 2 a 2 contra a Nova Zelândia numa partida pra lá de emocionante — a delegação iraniana foi obrigada a embarcar imediatamente de volta para Tijuana e cruzar uma fronteira internacional poucas horas após a partida, interrompendo os protocolos de recuperação física e preparação adotados por qualquer seleção da Copa. Inacreditavelmente uma equipe classificada para disputar a competição é impedida de permanecer no próprio país onde seus jogos são realizados.
O técnico Amir Ghalenoei afirmou não ter recebido qualquer explicação sobre qual órgão havia emitido a determinação. Revoltado, declarou que sua equipe era "a mais injustiçada da Copa do Mundo de 2026". A fala não parece exagerada. Um porta-voz das autoridades americanas justificou publicamente as restrições afirmando que os Estados Unidos não permitiriam que a seleção iraniana "abusasse do sistema de vistos para infiltrar terroristas nos Estados Unidos sob falsos pretextos". Em outras palavras, jogadores, dirigentes e funcionários de uma seleção oficialmente credenciada pela FIFA passaram a ser tratados não como participantes legítimos do maior torneio de futebol do planeta, mas como potenciais ameaças à segurança nacional do país-sede.
O que está acontecendo com o Irã não é apenas uma injustiça, é o descumprimento de todas as obrigações assumidas como condição de candidatura. Que a FIFA permaneça em silêncio diante disso não é omissão: é uma escolha.
A FIFA e a soberania do império
Nada disso aconteceu no vácuo. Omar Artan, árbitro da Somália designado para a Copa, foi deportado dos Estados Unidos após ter seu visto negado, mesmo portando documentação correta. A delegação do Senegal, ao desembarcar nos EUA, foi submetida a detectores de metal e seus integrantes tiveram de retirar os calçados ainda na pista. O atacante iraquiano Aymen Hussein, principal nome de sua seleção, passou cerca de sete horas sob procedimentos de imigração ao desembarcar em Chicago. Além disso, torcedores de ao menos quinze países classificados para a Copa enfrentaram congelamento de vistos ou restrições severas de imigração, sendo que para determinadas nacionalidades, foi exigido ainda um cheque caução como condição de entrada nos EUA. Para surpresa de ninguém a lista dos prejudicados é composta majoritariamente por países africanos, árabes e latino-americanos.
Diante de cada um desses episódios, a FIFA respondeu com uma fórmula revoltante para qualquer pessoa que leva o esporte a sério. Em relação ao árbitro somaliano deportado, a entidade afirmou não ter poder para intervir no processo, ressaltando que, em situações como essa, cabe exclusivamente ao governo do país anfitrião autorizar ou negar a entrada de estrangeiros em seu território. Sobre os ingressos iranianos revogados, a FIFA disse estar "trabalhando em estreita colaboração" com a federação. Sobre a expulsão da seleção iraniana após o jogo, silêncio. Sobre a restrições aos torcedores de outras seleções classificadas também. A “grande festa do futebol”, ao que parece, tem lista VIP.
A FIFA proclama, em cada oportunidade, sua neutralidade política e seu caráter universal. Seu lema "For the Game. For the World" (Pelo Jogo. Pelo Mundo), sintetiza a pretensão de uma entidade acima dos conflitos que dividem a humanidade. O futebol como território de igualdade entre nações: essa é a ideologia que a instituição vende, e que em grande medida explica o apelo emocional das Copas.
Mas o que esta Copa evidencia é que essa universalidade tem fronteiras muito bem definidas. Ela vale enquanto não colide com os interesses estratégicos da principal potência imperialista do planeta. Quando isso acontece, os regulamentos da FIFA, suas promessas de neutralidade e até mesmo os compromissos assumidos para a realização do torneio tornam-se secundários.
O caso iraniano é a demonstração mais nítida. Diante de um participante que se encontra em conflito militar aberto com o país-sede, a FIFA não reivindica autonomia, não exige o cumprimento de suas próprias regras, não questiona a discriminação contra atletas, dirigentes ou torcedores. Limita-se a declarar sua impotência e a aceitar que as autoridades americanas decidam, na prática, em que condições uma seleção poderá disputar a Copa do Mundo.
A questão não é apenas a soberania dos Estados Unidos. É a subordinação de uma entidade que se apresenta como representante universal do futebol aos interesses da potência que domina a ordem mundial. Quando a FIFA afirma que nada pode fazer, ela está dizendo que seus regulamentos terminam exatamente onde começam os interesses do imperialismo norte-americano. A soberania que ela reconhece é a soberania dos que têm capacidade de impô-la. Não por acaso seu presidente, Gianni Infantino, participou do sorteio ao lado de Donald Trump e lhe concedeu uma medalha da paz numa cerimônia da entidade.
Para além da denúncia
A seleção iraniana não foi excluída da Copa, mas foi obrigada a disputar o torneio sob condições que nenhuma seleção de um país imperialista aceitaria como normais. E talvez seja justamente por isso que seu caso seja tão revelador. Ele mostra que a maior competição esportiva do planeta não escapa da lógica que organiza o mundo fora dos estádios.
A Copa do Mundo sempre foi uma das expressões mais sedutoras da promessa de união dos povos: seleções dos cinco continentes reunidas em um mesmo torneio, milhões de pessoas acompanhando os mesmos jogos, um espetáculo vendido como celebração da humanidade comum. Em vez disso, a Copa de 2026 expôs que nem todas as bandeiras têm o mesmo peso, nem todos os passaportes têm o mesmo valor e nem todas as pessoas têm o mesmo direito de atravessar as fronteiras do mundo.
Isso é válido para o capital: para os patrocinadores, para os contratos bilionários, para os direitos de transmissão e para os negócios da FIFA. Para esses setores as fronteiras praticamente não existem. Já para povos “inconvenientes”, para os países em conflito com as grandes potências ou submetidos a sanções, para os países pobres, os migrantes e refugiados as fronteiras continuam sendo barreiras muito reais.
Mas uma perspectiva internacionalista de classe não pode se limitar a denunciar tais injustiças. A FIFA, como qualquer grande instituição do capitalismo, opera dentro dos limites que a ordem imperialista lhe impõe, e quando esses limites colidem com seus próprios regulamentos, são os regulamentos que cedem. Isso nos coloca exigências concretas.
Para os movimentos operários e organizações internacionalistas, significa recusar a separação artificial entre o "esportivo" e o "político" — separação que a própria FIFA invoca seletivamente, punindo seleções por manifestações de jogadores em campo enquanto naturaliza a discriminação sistemática de países inteiros fora dele. Significa exigir que qualquer sede de Copa do Mundo ofereça garantias reais e verificáveis de acesso igualitário e que o descumprimento dessas garantias tenha consequências efetivas, não apenas notas de pesar. E que a solidariedade de classe e internacionalista — em especial com povos submetidos a sanções, guerras e discriminação — não termine na arquibancada, mas se traduza em posição política e, principalmente, em organização.
Isso não significa que o futebol seja apenas instrumento de dominação. Significa que ele é também terreno de contradições. E que as contradições desta Copa são tão reveladoras quanto os gols. Amar o jogo e enxergar o poder que o atravessa não são coisas opostas. São, para quem pensa a partir da classe trabalhadora, a mesma coisa.