O paraíso bolsonarista vai à lona: Como a crise no Paraguai expõe as contradições do modelo da extrema direita

Érika Andreassy
O paraíso bolsonarista vai à lona: Como a crise no Paraguai expõe as contradições do modelo da extrema direita
Presidente Santiago Peña renunciou diante da crise do Banco Ueno

Em fevereiro deste ano, Eduardo Bolsonaro participou de uma noite de gala da extrema direita latino-americana realizada em Mar-a-Lago, propriedade de Donald Trump, na Flórida. O encontro reuniu empresários e representantes políticos identificados com o trumpismo e contou com a participação de figuras como o argentino Fernando Cerimedo e Javier Milei, que enviou uma mensagem gravada. Entre os principais patrocinadores estava o Ueno Bank, instituição financeira paraguaia que, meses depois, se tornaria o centro de um escândalo bancário e de uma crise política que culminou no anúncio de renúncia do presidente Santiago Peña.

A coincidência tem significado político. O Paraguai vinha sendo apresentado por setores do bolsonarismo como uma espécie de paraíso econômico: um país de impostos baixos, liberdade para os negócios e governos conservadores, em contraposição ao Brasil governado pelo PT. Não se tratava apenas de incentivar empresários a transferir seus negócios para o país vizinho. O Paraguai havia se transformado em uma vitrine de um projeto econômico e político defendido pela extrema direita brasileira.

Agora, a crise do Ueno Bank atinge essa vitrine e expõe relações entre interesses empresariais, poder político e espaços de articulação internacional da extrema direita. Eduardo Bolsonaro, entretanto, tenta inverter o sentido do episódio. No lugar de discutir a crise que afeta os correntistas — entre os quais muitos brasileiros — e as relações políticas da instituição, procura transformar o caso em exemplo de “combate à corrupção”.

O Paraguai como vitrine da extrema direita

Nos últimos anos, o Paraguai ganhou espaço na propaganda de empresários, influenciadores e organizações identificadas com a extrema direita brasileira. O país foi apresentado como uma alternativa para quem queria escapar da elevada carga tributária, da burocracia e das restrições impostas pelo Estado brasileiro.

A promessa ia além das vantagens para abrir empresas ou transferir patrimônio. O Paraguai era descrito como exemplo de um modelo de sociedade: menos impostos, menor intervenção estatal, liberdade para o capital e governos conservadores. Uma espécie de demonstração prática de que seria possível prosperar longe das políticas associadas à esquerda.

Essa propaganda ganhou força particularmente entre setores bolsonaristas após a derrota eleitoral de 2022 e, posteriormente, com o agravamento da polarização política brasileira. A mudança para o Paraguai passou a ser apresentada também como uma forma de escapar do governo Lula e da “ditadura da toga” do judiciário.

Mas a realidade paraguaia está longe dessa imagem idealizada. A economia do país tem uma estrutura profundamente desigual, marcada pela concentração da propriedade da terra, pelo peso do agronegócio, pela informalidade e por relações históricas entre grupos empresariais e poder político.

O crescimento econômico e as condições favoráveis aos negócios do período recente não eliminaram essas contradições. Tampouco significaram que o Estado tenha deixado de desempenhar um papel importante na sustentação dos interesses empresariais. A crise do Ueno Bank tornou essas contradições particularmente visíveis.

Um banco, o poder político e a rede internacional da extrema direita

Criado em 2021, o Ueno Bank cresceu rapidamente e se tornou uma das principais instituições financeiras do Paraguai. Chegou a aproximadamente três milhões de clientes, administrando cerca de 850 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores de instituições estatais e entidades previdenciárias.

Sua expansão ocorreu durante o governo de Santiago Peña. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025, quando afirma ter vendido sua participação. Embora Peña negue ter tido participação direta no Ueno, suas relações empresariais anteriores com o grupo passaram a integrar o centro dos questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.

O Banco Central paraguaio iniciou o processo de resolução da instituição depois de constatar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido. A investigação identificou operações de crédito com empresas relacionadas ao grupo controlador e deficiências na documentação dessas operações. Milhões de correntistas ficaram temporariamente sem acesso às suas contas, enquanto aposentados, trabalhadores e pequenos empresários enfrentam dificuldades para movimentar seus recursos.

Mas existe outro aspecto do caso que merece atenção: as relações do banco com a articulação internacional da extrema direita.

Em 10 de fevereiro de 2026, o Ueno Bank foi um dos seis patrocinadores da categoria Diamond da Hispanic Prosperity Gala, realizada em Mar-a-Lago. O evento, organizado pela plataforma Latino Wall Street, reuniu representantes empresariais e políticos identificados com o conservadorismo e o trumpismo.

Eduardo Bolsonaro participou presencialmente e publicou agradecimentos pelo convite. Também estavam presentes o deputado brasileiro Mario Frias e o consultor argentino Fernando Cerimedo, que recebeu uma homenagem entregue pelo próprio Eduardo. Javier Milei, anunciado entre os convidados, participou por meio de uma mensagem gravada.

A gala não foi um acontecimento isolado. A Latino Wall Street mantém relações com a CPAC Latino — sigla em inglês para a Conferência de Ação Política Conservadora, o maior evento do movimento conservador dos Estados Unidos — e promove encontros que conectam empresários, operadores políticos e representantes da direita latino-americana e norte-americana. A organização também registra eventos anteriores com a participação de setores ligados ao conservadorismo internacional.

O Ueno aparecia como patrocinador de maior categoria da gala. A tabela divulgada pelos organizadores indicava uma cota Diamond deb100 mil dólares, embora não haja confirmação pública do valor efetivamente pago pelo banco.

Uma reportagem publicada pelo jornal argentino El Ciudadano vai além e aponta relações financeiras entre o Ueno e uma rede de comunicação e articulação política da extrema direita envolvendo Fernando Cerimedo, o espanhol Javier Negre e Andy Rivas. A reportagem sustenta que recursos previdenciários administrados pelo banco teriam alimentado essa rede de eventos e influência política.

Não estamos, portanto, diante apenas de um banco que entrou em crise, mas de uma conexão política documentada: uma instituição financeira com relações empresariais com o entorno do governo paraguaio patrocinou um espaço de articulação da extrema direita internacional, do qual participaram representantes do bolsonarismo e do trumpismo. O episódio evidencia o lugar ocupado pelo banco nas relações entre poder econômico e articulação política internacional da direita.

A crise da vitrine e o cerco a Peña

A crise financeira do Ueno rapidamente ultrapassou os limites de um problema bancário. As suspeitas envolvendo operações de crédito, as relações entre o grupo controlador e o presidente e os questionamentos sobre a fiscalização do Banco Central alimentaram uma crise política.

A oposição passou a cobrar explicações e a defender o julgamento político de Santiago Peña. A pressão aumentou quando Horacio Cartes, principal liderança do Partido Colorado, retirou seu apoio ao presidente.

Na quinta-feira, 5 de novembro, Peña anunciou sua renúncia. A Câmara dos Deputados, porém, rejeitou a renúncia e aprovou por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment. A decisão sobre o afastamento cabe agora ao Senado. Por isso, a posse do vice-presidente Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado, ainda não estava consumada até o momento em que esse artigo foi escrito.

É importante compreender o significado desse desfecho. O anúncio de renúncia de Peña não representa, por si só, uma derrota da direita paraguaia. O episódio também expressa uma disputa pelo controle político dentro do próprio Partido Colorado, que governa o país há décadas, com breves interrupções. O escândalo bancário foi o estopim da crise, mas a ruptura política decisiva ocorreu quando Cartes e setores do próprio partido deixaram de sustentar Peña. Caso Pedro Alliana assuma a Presidência, a substituição poderá preservar a orientação geral do governo e permitir uma recomposição das relações entre os grupos dominantes.

Ainda assim, o episódio expõe as contradições de um modelo que vinha sendo apresentado como exemplo de estabilidade e segurança para os negócios.

Eduardo Bolsonaro tenta virar o jogo

Diante da crise, Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em suas redes sociais, comparando o caso do Ueno Bank ao escândalo do Banco Master no Brasil. Destaca que, no Paraguai, dirigentes da instituição foram presos e o presidente anunciou sua renúncia, enquanto no Brasil, segundo sua interpretação, um escândalo muito mais grave teria culminado na reeleição de Lula. Mas Eduardo vai além: reafirma que o Paraguai deve continuar recebendo brasileiros que estariam fugindo daquilo que chama de “ditadura da toga”.

A operação discursiva chega a ser surreal. Não é só que o episódio que atinge uma instituição financeira patrocinadora de um encontro da extrema direita internacional, do qual ele próprio participou foi deslocado para uma comparação com o Brasil. Mas que, ao invés de oferecer explicações sobre as relações entre o banco, seus controladores, o governo paraguaio e o circuito político que patrocinava o evento, Eduardo inverte a narrativa para reafirmar o Paraguai como alternativa política ao Brasil.

Não se trata, portanto, de abandonar a imagem do Paraguai como paraíso bolsonarista, mas de tentar preservá-la e ressignificá-la. Justamente quando um dos símbolos dessa construção política está no centro de uma crise que tem potencial para abalar a propaganda sobre a superioridade do modelo paraguaio, ela é convertida em mais um capítulo da narrativa bolsonarista de perseguição política.

As contradições por trás da promessa de liberdade econômica

O caso do Ueno Bank expõe uma contradição que vai além do Paraguai. A propaganda liberal apresenta a redução de impostos, a desregulamentação e a liberdade para os negócios como caminhos para o desenvolvimento e a prosperidade. Mas a experiência concreta do capitalismo não elimina a relação entre grandes grupos econômicos e o poder político. Ao contrário, frequentemente a aprofunda.

A expansão de uma instituição financeira, a concentração de recursos públicos, as operações de crédito com empresas relacionadas aos controladores e as relações empresariais com integrantes do governo mostram que a liberdade do capital não significa ausência de relações privilegiadas com o Estado.

E há uma dimensão internacional que não pode ser ignorada. A extrema direita não se articula apenas por afinidades ideológicas ou pela circulação de discursos nas redes sociais. Ela também constrói relações materiais entre empresários, instituições financeiras, consultorias políticas, meios de comunicação e organizações que promovem encontros e campanhas internacionais.

A participação do Ueno Bank na Hispanic Prosperity Gala é um exemplo concreto dessa conexão. A crise da instituição torna ainda mais necessário investigar como se organizam e se financiam essas redes, quais interesses econômicos as sustentam e que relações estabelecem com governos e grupos empresariais.

O Paraguai não deixou de ser capitalista quando o Ueno entrou em crise, assim como o Brasil não se tornou um exemplo de justiça social por ter um governo do PT. A questão é outra: nenhum dos modelos apresentados pela burguesia como solução para os problemas dos trabalhadores elimina a exploração, a concentração de riqueza e as relações entre poder econômico e poder político.

A crise paraguaia não deve alimentar ilusões de que a simples substituição de um governo burguês por outro resolverá essas contradições. Tampouco deve servir para legitimar a administração petista ou suas alianças com setores empresariais. A classe trabalhadora precisa manter sua independência política diante dos diferentes governos e frações da burguesia.

O paraíso que o bolsonarismo vendia começa a revelar suas contradições. E a tentativa de Eduardo Bolsonaro de emplacar outra narrativa não apaga o fato de que uma instituição financeira ligada ao poder econômico paraguaio e patrocinadora de um encontro da extrema direita internacional está no centro de uma crise que abalou o governo de seu país.

Por trás da propaganda da liberdade econômica, seguem existindo os interesses do capital, suas relações com o Estado e as disputas pelo controle da riqueza produzida pela sociedade.

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