Estudantes e trabalhadores incendeiam a França

  • Manifestações pela educação se ampliam contra o alto custo de vida e se generalizam pela Europa
Estudantes e trabalhadores incendeiam a França
Protesto no dia 17 de outubro em Pari. Foto: JJxFile

Direto de Paris

No final de setembro explodiram manifestações por toda a França. Em seguida, espalharam-se por toda a Europa e continuam tomando força pelo continente.

As manifestações na França iniciaram a partir dos estudantes. Eles reivindicam mais dinheiro para educação, estrutura para as escolas, contratação de professores e melhores condições de ensino. Na sequência, os estudantes universitários aderiram às mobilizações, e também setores de trabalhadores. Além do tema da educação, as lutas têm como pano de fundo o aumento da carestia e as medidas de austeridade que serão promovidas pelo governo com o orçamento estipulado para 2027. Também se critica muito o investimento do governo Macron nas Forças Armadas e no envolvimento com o genocídio na Palestina, enquanto a educação se precariza.

Assim como na França, manifestações contra projetos de austeridade e a carestia têm tomado corpo. Na Bélgica, Alemanha, Espanha, Itália, Albânia, Sérvia, Grécia, entre outros, espalham-se lutas de estudantes e trabalhadores. No dia 30 de outubro, por exemplo, houve greve geral na Itália. E se prepara a greve geral também na França, no dia 5 de novembro, e na Espanha, no dia 11.

Estudantes organizam bloqueios nas escolas e manifestações

A luta na França começou com os estudantes secundaristas de bairros mais populares em Paris. As principais ações realizadas foram os bloqueios dos portões das escolas. Muitas vezes, essas ações são reprimidas pela polícia com gás de pimenta. A partir dessa ação, começaram a ser organizadas grandes manifestações, que logo foram aderidas pelos universitários.

As manifestações contaram com milhares de estudantes e se expandiram pelo país. A resposta do governo e da polícia francesa? Repressão. De maneira brutal, com milhares de presos, principalmente menores de idade, e centenas de feridos. Um estudante chegou a ter sua mão amputada após os policiais utilizarem granadas supostamente de efeito moral.

Essa repressão gerou ainda mais revolta, e as manifestações cresceram e devem culminar na greve geral marcada para 5 de novembro. Durante os atos, existem muitos gritos de defesa da educação, mas também contra a repressão e contra o fascismo, como: “siamo tutti antifascisti” (Somos todos antifascistas!), “tout le monde déteste la police” (todo mundo detesta a polícia!); esses são os gritos mais comuns.

Além disso, muitas pessoas usam bandeiras da Palestina, e há muitos cartazes de alusão ao histórico processo de luta de Maio de 68, bem como cartazes exigindo a “demissão” do Macron, questionando qual futuro será deixado para a juventude, entre outros.

Manifestações crescem: a volta dos gilets jaunes

As revoltas do mês de outubro culminaram em três datas importantes: 17, 24 e 31. O dia 17 foi amplamente divulgado e construído, sendo conhecido como “a volta dos gilets jaunes” (coletes amarelos), grupo de trabalhadores que usa coletes amarelos e faz grandes ações radicalizadas. O dia 17 também unificou alguns sindicatos, que fizeram chamados ao dia de lutas, como a Confédération Générale du Travail (CGT) e o Solidaires, além de bombeiros, camponeses e outros setores de trabalhadores. Todos esperavam muito entusiasmados pelo dia 17, que entregou o que prometeu: milhares de pessoas nas ruas da França e um dia intenso de lutas.

Nas ruas, muitos jovens, muitas palavras de ordem, mas também muita repressão. Foi um dia intenso em que as pessoas não queriam sair das ruas. A manifestação durou horas, e o poder público perdeu totalmente o controle. No dia seguinte, Macron disse, em declaração em rede nacional de televisão, que a violência pela qual a França havia passado naquele dia era inaceitável e que medidas cabíveis seriam tomadas (referindo-se aos saques de lojas e ao incêndio no prédio da prefeitura de Limoges), realizando um toque de recolher em certas regiões. Infelizmente, durante o toque de recolher, foi visto um desfile de um grupo fascista na cidade de Lyon, com bandeiras e símbolos fascistas, que de maneira nenhuma foi reprimido pela polícia, como fizeram com os estudantes. Importante dizer também que Macron, na noite anterior aos protestos, estava com sua esposa no show da Celine Dion, o que também gerou mais revolta entre a população.

As jornadas de 24 e 31 também foram marcadas por fortes mobilizações nacionais, ainda que um pouco menores devido às férias escolares (na França, os estudantes têm férias de duas semanas no mês de novembro). A manifestação do dia 31 de outubro foi marcada, também, por diversas pessoas fantasiadas, por ser o dia do Halloween, e com várias referências ao Brasil pós-eleição de Lula, que conseguiu derrotar Flávio Bolsonaro nas urnas.

Greve geral

Após um mês intenso de mobilizações, em 2 de novembro as aulas voltaram nas escolas e universidades, e os estudantes novamente estão chamando novos bloqueios, para retomar as mobilizações. No dia 5 de novembro, sindicatos, estudantes e organizações constroem a greve geral no país.

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