O São João de Campina Grande é apresentado ao Brasil como o Maior São João do Mundo. Em 2026, serão 33 dias de festa, entre 3 de junho e 5 de julho, com expectativa de receber cerca de 3,5 milhões de visitantes e movimentar mais de R$ 800 milhões na economia paraibana.
Os números são grandiosos. As imagens do Parque do Povo lotado percorrem o país. Hotéis registram alta ocupação, bares e restaurantes ampliam suas vendas, patrocinadores celebram resultados e a cidade se transforma em uma vitrine turística nacional.
Mas, por trás do espetáculo, uma notícia revela uma realidade bem menos festiva. Servidores municipais de Campina Grande entraram em greve: garis, vigias, profissionais da saúde e trabalhadores de apoio das escolas municipais decidiram cruzar os braços para reivindicar direitos básicos como a valorização profissional, reajustes salariais, pagamento de benefícios atrasados e melhores condições de trabalho.
A mobilização ganhou ainda mais visibilidade quando os grevistas realizaram protestos no Parque do Povo, principal palco do Maior São João do Mundo. Em meio aos shows, ao fluxo de turistas e à intensa programação da festa, os trabalhadores levaram suas reivindicações para o coração do evento, transformando o espaço da celebração em palco de uma cobrança pública por direitos e valorização profissional.
A cena é emblemática. Enquanto milhões circulam durante a maior festa da cidade, trabalhadores responsáveis por manter os serviços públicos funcionando precisam recorrer à greve e aos protestos para serem ouvidos.
A festa milionária e o protesto no coração do São João
A primeira contradição do Maior São João do Mundo está justamente aí. Como uma cidade capaz de sediar uma festa que movimenta mais de R$ 800 milhões impõe aos servidores salários defasados, benefícios atrasados e falta de valorização profissional?
A greve escancara uma questão que costuma ficar escondida atrás dos números recordes e das campanhas promocionais: quem produz a riqueza da cidade está sendo beneficiado por ela?
Enquanto o evento projeta crescimento econômico, trabalhadores essenciais precisam paralisar suas atividades para reivindicar direitos elementares.

Cachês milionários e migalhas para quem mantém a tradição
Mas essa não é a única contradição. Todos os anos, artistas nacionais recebem cachês milionários para se apresentar no circuito junino. Em 2025, nomes presentes na programação de Campina Grande e em outras grandes festas nordestinas receberam valores que chegaram a cifras impressionantes.
Wesley Safadão ultrapassou R$ 1,2 milhão por apresentação. Luan Santana recebeu cerca de R$ 985 mil. Jorge & Mateus ficaram na faixa dos R$ 800 mil. Outros artistas também receberam centenas de milhares de reais por show.
Enquanto uma única apresentação desses artistas pode custar quase R$ 1 milhão, os trios pé-de-serra — responsáveis por preservar a tradição que deu origem à festa — recebiam até recentemente apenas R$ 850 por três horas de apresentação. Após forte repercussão e pressão pública, o valor foi reajustado para R$ 950.
O cachê de um único show de Wesley Safadão equivale a mais de 1.200 apresentações de um trio pé-de-serra. O de Luan Santana corresponde a mais de mil apresentações. O de Jorge & Mateus equivale a mais de 800.
São justamente os músicos que mantêm viva a identidade cultural do São João os que recebem os menores valores da festa.
Quando o forró deixa de ser protagonista
A terceira contradição é cultural. Campina Grande tornou-se conhecida nacionalmente por causa do forró. Sua história foi construída ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. Foi construída a partir do legado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, Flávio José e de milhares de músicos anônimos que fizeram do forró um dos maiores símbolos da cultura nordestina.
No entanto, ano após ano, cresce o espaço ocupado por artistas sertanejos e por atrações de gêneros cada vez mais distantes da tradição junina.
Quando o gênero que construiu a festa perde protagonismo dentro dela, surge uma pergunta inevitável: qual é a identidade que está sendo celebrada?
Uma festa criada para exaltar a cultura nordestina não pode transformar o forró em mera decoração cultural enquanto concentra investimentos, publicidade e horários nobres em atrações que pouco dialogam com a origem histórica da celebração.
Quem se beneficia do crescimento?
As três situações — a greve dos servidores, a desvalorização dos artistas locais e a perda de espaço do forró tradicional — não são acontecimentos isolados. Elas revelam uma mesma lógica. A lógica de um modelo que celebra os grandes números, mas distribui muito pouco da riqueza produzida entre aqueles que sustentam a cidade e a própria festa.
Os trabalhadores que mantêm os serviços públicos funcionando reivindicam direitos. Os músicos que preservam a tradição reivindicam valorização. Os defensores da cultura popular reivindicam respeito à identidade nordestina.
Enquanto isso, o público aumenta, o faturamento aumenta e os investimentos aumentam. Mas permanece a pergunta que Campina Grande precisa enfrentar: Quem está se beneficiando desse crescimento?
A verdadeira grandeza de uma festa
Uma festa pode ser a maior do mundo em público, duração e faturamento. Mas sua verdadeira grandeza deveria ser medida também pela forma como trata seus trabalhadores, valoriza seus artistas e preserva a cultura que a tornou famosa.
Talvez o maior desafio do São João de Campina Grande não seja bater novos recordes, mas garantir que a riqueza gerada pela festa alcance aqueles que fazem a cidade funcionar e aqueles que mantêm viva a alma do próprio São João.
Talvez a imagem mais representativa deste São João não seja apenas a do Parque do Povo lotado. Talvez seja a dos trabalhadores em greve caminhando pelo mesmo espaço onde milhões de reais circulam durante a festa.
De um lado, o discurso do sucesso econômico. Do outro, a reivindicação por direitos básicos. Entre essas duas imagens está a principal contradição do São João de Campina Grande.
Todo apoio à greve dos servidores municipais de Campina Grande. Todo apoio à luta pela valorização dos artistas locais e da tradição junina. É tempo de dançar forró, mas também de lutar por direitos. Os servidores municipais de Campina Grande dão exemplo.