Danilo Soares Silva, de São Paulo (SP)
É notável a recente popularização das religiões de matriz africana e ameríndia no Brasil. Elas saíram da invisibilidade dos fundos de quintal e ganharam livros, músicas, universidades e redes sociais. Mas essa visibilidade veio com um preço: o preconceito e a intolerância religiosa continuam cercando os terreiros com a mesma violência de 100 anos atrás, só que com novas roupagens.
Parte do movimento neopentecostal, encabeçado por setores da extrema direita que ganharam força especialmente nos últimos 15 anos, transformou o ódio religioso em projeto político. Igrejas viraram palanque, e terreiro virou alvo.
De acordo com o Disque 100, entre 2015 e 2022 foram registradas mais de 2.200 denúncias de intolerância religiosa no país, sendo que mais de 60% delas eram contra religiões de matriz africana. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública também apontou aumento de 77% nos casos de intolerância religiosa entre 2019 e 2023. São pedradas, invasões, queima de assentamentos, ofensas e ameaças de morte transmitidas ao vivo.
Mesmo diante de toda a repressão, o terreiro segue sendo um local de refúgio dos marginalizados. Ele cumpre um papel que o Estado se recusa a cumprir: resistência e acolhimento.
Muitas tendas e barracões de Umbanda, Quimbanda, Candomblé, Catimbó, Jurema, entre outros, seguem uma visão de religiosidade sem a dogmática cristã ocidental. Enaltecem a cultura essencialmente negra e dos povos originários da América do Sul, mas também acolhem e dão voz à comunidade LGBTQIA+, que encontra nesses espaços um dos poucos lugares de pertencimento sem julgamento.
Também vale ressaltar a figura da mulher dentro dessas religiosidades, que cumpre um papel de destaque e de ruptura. Enquanto a sociedade e muitas igrejas confinam a mulher ao silêncio, no terreiro ela comanda. Grandes matriarcas como Mãe Menininha do Gantois, Mãe Stella de Oxóssi, Mãe Beata de Iemanjá, além das próprias divindades femininas como Iemanjá, Oxum e Oyá, criaram um ambiente apartado da lógica patriarcal. Aqui, o poder não vem de terno e gravata. Vem de axé, de cuidado e de ancestralidade. É um modelo civilizatório onde o feminino comanda, cura e guerreia.
O fantasma do embranquecimento
Um outro ponto preocupante diante da recente popularização dessas religiões é o "embranquecimento" da cultura. Sempre houve uma tentativa coordenada, que vem desde o início do Século XX, de modificar e fazer esquecer fundamentos importantes. Como aponta o sociólogo Reginaldo Prandi, o processo de institucionalização da Umbanda no Brasil esteve diretamente ligado a um projeto de "branqueamento" religioso, que buscava aproximá-la do espiritismo kardecista e afastá-la das suas raízes africanas para obter legitimidade social e aceitação da elite.
O racismo dentro das próprias religiões de matriz africana não é novidade. A criação do mito de Zélio Fernandino de Moraes, um homem branco, como fundador único da Umbanda em 1908, é um exemplo emblemático desse apagamento. Essa narrativa, amplamente difundida por décadas, oculta as práticas afro-brasileiras e indígenas que já existiam há muito tempo nos terreiros populares.
É de extrema importância reivindicar a origem banto-ameríndia da Umbanda e reconhecer que essa religiosidade, mesmo não sendo institucionalizada, já era praticada desde a diáspora africana. Segundo o sociólogo Lísias Negrão, os terreiros e centros espíritas de base popular já cultuavam caboclos e pretos-velhos no final do Século XIX. Por outro lado, figuras como Tata Tancredo da Silva, conhecido popularmente como o "Papa Negro da Umbanda", foram fundamentais para a resistência e proteção dos costumes da religião. Ele reivindicou publicamente a origem negra da Umbanda e manteve a centralidade dos atabaques, dos pontos cantados e da ancestralidade africana no rito.
Esse movimento de "embranquecimento" volta à tona de forma preocupante. Vemos tentativas de retirar os atabaques dos terreiros e trocá-los por instrumentos da música gospel. Vemos a mudança do nome das entidades, a estética "clean" e a reescrita de histórias para agradar um público branco de classe média e alta.
Como alerta a antropóloga Stefania Capone, esse processo representa uma "violência simbólica" contra religiões que deveriam ser reconhecidas como patrimônio cultural e histórico do nosso país. Proteger as raízes da religião contra esses e outros tipos de violência é, portanto, um ato de resistência e de reparação histórica.
Terreiro como Quilombo contemporâneo
Mesmo com toda a repressão e o apagamento, os terreiros seguem cumprindo um importante trabalho social nas periferias do Brasil. Para além do âmbito espiritual, são organizações extremamente ativas nas comunidades.
O Cosme e Damião, festejo muito popular nos terreiros de Umbanda e em alguns barracões de Candomblé, é mais um exemplo disso. Além da clássica entrega de doces, há diversas iniciativas de lazer para as crianças, especialmente as mais carentes. É o dia em que a rua vira festa, e a fartura vence a escassez.
Outros exemplos são as entregas de marmitas, cobertores, cestas básicas e sopões que muitos terreiros têm como costume. Nas enchentes do Rio Grande do Sul, nas frias de São Paulo, na fome do Nordeste, foi gente de axé que primeiro chegou.
O terreiro segue firmemente a cultura de quilombo: se enxergando como parte da comunidade e cumprindo um papel que deveria ser dever do Estado. É política feita no concreto. É o quilombo que virou barracão. É a comunidade cuidando da comunidade, sem nota fiscal e sem esperar por verba pública.
Enquanto o poder público falta, o terreiro entrega marmita, cesta básica, cobertor no frio e roda de conversa para a criança. É saúde mental, é assistência social, é educação popular.
Aqui quem comanda na maioria das casas são mulheres. Mães de santo, iyalorixás, ekedys. E as entidades femininas como Iemanjá, Oxum e Oyá não são submissas a ninguém. Elas mandam, curam e guerreiam.
O capitalismo te vende meritocracia, produtividade e esquecimento dos mais velhos. No terreiro o preto-velho é sábio. O caboclo é mestre. O ancestral se senta à mesa. A morte não é fim. É passagem. E por isso nem a morte consegue vencer a gente.
Seguir cultuando em iorubá, banto e tupi. Bater tambor alto. Rodar com saia e guia no pescoço é dizer: nossa memória não vai morrer. É escolher o atabaque em vez da guitarra.
LGBTQIA+, morador de rua, usuário, ex-presidiário. O terreiro abre a porta. Aqui não se pergunta "você merece?". Pergunta-se "o que você precisa?". É comunidade antes de dogma. É vida antes de regra. Por isso ser de terreiro vai além de fé.
É política. É cultura. É saúde mental. É educação. É economia solidária.
É escolher um caminho que, desde o navio negreiro, tentaram apagar com chibatada, com cadeia, com lei e agora com discurso de ódio na internet. É dizer, todos os dias: nós existimos, nós resistimos, e a nossa ancestralidade não será apagada.
Referências usadas:
- Reginaldo Prandi. O Brasil com Axé: Candomblé e Umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados, 2004.
- Renato Ortiz. A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira. Brasiliense, 1999.
- Lísias Negrão. Entre a cruz e a encruzilhada: formação do campo umbandista em São Paulo. Edusp, 1996.
- Stefania Capone. A busca da África no Candomblé: tradição e transformação da cultura afro-brasileira. Pallas, 2004.
- Vagner Gonçalves da Silva. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. Selo Negro, 2015.