Hertz Dias: Do microfone na mão às ruas, entoando os versos da revolução

Roberto Aguiar, da redação
Hertz Dias: Do microfone na mão às ruas, entoando os versos da revolução
Hertz Dias em Curitiba (PR) Foto Phil Natal

Roberto Aguiar e Júlio Anselmo, da Redação

Professor, rapper e militante socialista, Hertz Dias chega às eleições de 2026 levando para a campanha uma trajetória construída nas escolas públicas, nas periferias, no movimento negro e nas lutas da classe trabalhadora.

Entre livros, salas de aula, batalhas de rap, assembleias sindicais, ocupações populares e manifestações de rua, Hertz construiu uma trajetória unindo educação, cultura e militância política em defesa de um mesmo projeto: organizar os de baixo para enfrentar a exploração, combater o racismo e construir uma sociedade socialista.

É dessa caminhada que nasce sua candidatura à presidência da República pelo PSTU, tendo como candidata à vice-presidente a professora mineira Vanessa Portugal.

A formação de um educador

Natural de São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís (MA), Hertz Dias cresceu em uma família trabalhadora e conheceu desde cedo as contradições de um país profundamente desigual. As experiências vividas na infância e na juventude, em um estado marcado pela pobreza e pela exclusão social, ajudaram a moldar sua compreensão da realidade brasileira.

Começou a trabalhar muito cedo. Deixou a escola pelo racismo que sofria, espaço ao qual retorna já adulto, incentivado pelas músicas do grupo de rap Racionais MC’s. Assim, a educação ganhou outro significado em sua vida, que ultrapassava os limites da escola. O conhecimento não apareceu como possibilidade de ascensão individual, mas como instrumento para compreender as estruturas que produzem as desigualdades e, sobretudo, para transformá-las.

Passou no vestibular e cursou História na Universidade Federal do Maranhão, quando a universidade era um lugar com poucos pobres e negros. Aprovado no concurso público, tornou-se professor na rede pública municipal e estadual. Querido pelos seus alunos em sala de aula, Hertz tem uma prática pedagógica voltada à formação crítica de seus estudantes, pois compreende o ensino como parte do processo de emancipação da juventude trabalhadora.

Mestre em Educação, desenvolve pesquisas voltadas às relações entre cultura, juventude, racismo e organização popular, sempre procurando estabelecer pontes entre produção intelectual e intervenção política. Em sua trajetória, universidade e movimento social nunca ocuparam lugares opostos.

O hip-hop como instrumento de luta

Hertz encontrou na cultura uma poderosa ferramenta de organização popular. Ainda no final da década de 1980, aproximou-se do movimento hip-hop, inicialmente por meio do break e, logo depois, do rap. Em um contexto de expansão da violência urbana, do desemprego e da marginalização da juventude negra, o hip-hop se tornou uma linguagem capaz de transformar indignação em consciência política.

Suas letras denunciam a violência policial, o racismo, a pobreza, o abandono das periferias e a ausência de perspectivas para milhares de jovens brasileiros. Mas, diferentemente da lógica da indústria cultural, não se limita à denúncia. São letras que convidam à organização coletiva.

Dessa experiência, surgiu o Quilombo Urbano, organização que se tornou referência nacional ao articular cultura, formação política e mobilização social nas periferias de São Luís. Muito além de um coletivo artístico, o Quilombo Urbano consolidou-se como espaço de resistência da juventude negra, promovendo debates, atividades culturais, campanhas comunitárias e ações voltadas ao fortalecimento da organização popular.

Hertz passou a integrar o grupo Gíria Vermelha, como vocalista do grupo, mantém vivo um rap profundamente identificado com as lutas sociais e com a tradição de resistência construída pelo movimento hip-hop.

Em suas reflexões sobre cultura, insiste em uma ideia que atravessa toda a sua produção intelectual: o hip-hop nasceu como expressão de contestação e não pode ser reduzido a mercadoria. Quando transformado apenas em produto para consumo, perde parte significativa de sua capacidade de questionar a ordem estabelecida.

Trajetória

O combateao racismo com raça & classe

A atuação de Hertz Dias no movimento negro se tornou uma das marcas mais conhecidas de sua trajetória política.

Ao longo de décadas de militância, participou de debates, seminários, publicações e iniciativas voltadas ao enfrentamento do racismo numa perspectiva marxista como questão de raça e classe. Em seus textos, argumenta que a discriminação racial não pode ser compreendida apenas como resultado de preconceitos individuais, mas como parte da própria formação histórica do capitalismo brasileiro.

Segundo essa perspectiva, a escravidão, a concentração de renda e a exclusão social produziram uma estrutura que continua relegando a população negra às piores condições de trabalho, renda, moradia, educação e acesso aos direitos fundamentais.

Ao mesmo tempo, Hertz defende que o combate ao racismo exige mais do que políticas de inclusão limitadas às instituições existentes. Para ele, a emancipação da população negra está profundamente ligada à transformação das relações econômicas que sustentam a exploração da classe trabalhadora.

Essa elaboração teórica aparece tanto em seus artigos quanto em sua prática militante. Sua atuação sempre buscou combinar a luta do movimento negro ligado com a classe operária, com as lutas dos trabalhadores, estudantes, povo pobre, conectado com o programa socialista, compreendendo que diferentes formas de opressão são reproduzidas pela forma capitalista de organização social.

A construção política no PSTU

Foi essa compreensão que aproximou Hertz Dias do PSTU. Ao ingressar no partido, encontrou uma organização comprometida com a independência política da classe trabalhadora, o internacionalismo e a defesa de uma transformação socialista da sociedade. Hoje integra a direção nacional do partido e se tornou uma de suas principais referências nos debates sobre educação, cultura, juventude e questão racial.

Ao longo desse período, disputou eleições para diferentes cargos, sempre afirmando que as campanhas eleitorais deveriam servir como espaço de diálogo com a população e de fortalecimento das lutas sociais, e não como mero instrumento de conquista de mandatos.

Em 2018, integrou a chapa presidencial ao lado de Vera Lúcia. Também concorreu ao governo do Maranhão e à prefeitura de São Luís, levando para as campanhas as reivindicações construídas pelos movimentos populares e pela classe trabalhadora.

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