A região do Triângulo Mineiro é palco, mais uma vez, de um roteiro conhecido da exploração capitalista e da subordinação nacional. A Mosaic Fertilizantes — monopólio transnacional norte-americano que controla mais de 70% da produção nacional de fosfatados desde a privatização da antiga Fosfertil nos anos 90 — além de manter fechada sua planta em Araxá, anunciou o plano de "hibernação" gradual de suas unidades na região, ameaçando paralisar as atividades em Uberaba e suspendendo as operações de mineração em Tapira. Milhares de postos de trabalho diretos e indiretos estão sob o fio da navalha.
A justificativa da transnacional apoia-se nas oscilações do mercado mundial. Com os conflitos internacionais e a instabilidade geopolítica em gargalos marítimos estratégicos, como o Estreito de Ormuz, o preço do enxofre elementar — insumo importado indispensável e subproduto do refino de petróleo nas mãos das grandes petroleiras internacionais — disparou para patamares históricos. Alegando a "impossibilidade de repassar o custo" do insumo, a empresa aciona sua arma mais violenta: a chantagem do desemprego em massa.
O fluxo da dependência: A engrenagem física entre Tapira e Uberaba
Para compreender a gravidade da situação e desarmar os discursos demagógicos da empresa e dos governos, é preciso enxergar como o complexo industrial da Mosaic funciona como um terminal avançado da exploração imperialista. O coração mineral está em Tapira (MG), onde é feita a extração da rocha fosfática, na ordem de 2 milhões de tonelada por ano. De lá, o minério concentrado é empurrado por um concentraduto (mineroduto) de longo alcance diretamente até o complexo industrial de Uberaba.
É em Uberaba que a transformação química a serviço do capital acontece. Mas a rocha nacional de Tapira não se transforma em adubo sozinha. A Unidade de Uberaba para produzir o principal adubo da planta, o MAP (Fosfato Monoamônico), depende crucialmente de duas artérias externas controladas por oligopólios.
A primeira é o Ácido Sulfúrico, indispensável para atacar a rocha fosfática. Sua produção consome de 40% a 50% de enxofre inteiramente importado do Oriente Médio (Catar e Arábia Saudita) — um subproduto do refino do petróleo e do processamento de gás natural controlado pelas petroleiras internacionais. Com os conflitos no Estreito de Ormuz e/ou em outras rotas marítimas fazendo o preço do enxofre disparar, a Mosaic não hesita em querer paralisar as plantas de produção, através da chantagem do desemprego, como pretexto para preservar seus lucros em dólar.
A segunda artéria é a Amônia Anidra, necessária para reagir com o ácido e formar o adubo. A fábrica exige volumes massivos desse insumo, do qual cerca de 40% é importada de Trinidad e Tobago e o restante dos EUA e Argélia. Essa dependência externa de amônia — baseada no refino do gás natural — é o resultado direto de um crime cometido pelas gestões privatistas, que fecharam e hibernaram as fábricas de nitrogenados da Petrobras (as antigas Fafens), destruindo nossa capacidade autônoma de síntese. Para fechar o ciclo de subordinação colonial nas misturas NPK e linhas de alta tecnologia (como o MicroEssentials), a Mosaic ainda importa o Cloreto de Potássio (KCl) diretamente de suas próprias minas gigantescas no Canadá e de oligopólios na Rússia.
Quando a Mosaic alega "impossibilidade de repassar custos" do enxofre e da amônia para paralisar a produção, ela escancara a farsa da privatização da antiga Fosfertil nos anos 90 e por que o setor é estratégico e não deveria estar nas mãos de oligopólios privados. Prometeram "eficiência do mercado", mas entregaram um modelo colonial. A tal "impossibilidade" não significa que a empresa não tenha como cobrir o custo do insumo — significa, pura e simplesmente, que repassá-lo exigiria comprimir a taxa de lucro dos acionistas, e isso a Mosaic simplesmente recusa.
O que se apresenta como "impossibilidade técnica" é, na verdade, uma decisão política de preservação das margens da extração de excedente: o custo existe e pode ser pago, mas não às custas de um centavo do alto lucro dos acionistas. Sem o refino químico em Uberaba, a mina de Tapira perde seu escoamento e é asfixiada por tabela. Esse nó logístico prova que, sob o controle de uma transnacional vinculada a Wall Street, o solo brasileiro e o emprego do trabalhador mineiro continuam acorrentados ao imperialismo energético, servindo unicamente para alimentar o agronegócio exportador enquanto o povo paga pela inflação dos alimentos no supermercado.
O caso de Araxá: 27% da capacidade nacional sacrificada pelo lucro
Mas os efeitos dessa lógica não se limitam às ameaças em Uberaba e Tapira. O fechamento definitivo do Complexo Mineroquímico de Araxá, anunciado em abril de 2026, escancarou a destruição causada pela busca incessante do lucro. A unidade, especializada na produção de Superfosfato Simples (SSP), foi desativada sob a justificativa da explosão do preço internacional do enxofre. O impacto foi devastador: a decisão reduziu em cerca de 1 milhão de toneladas por ano a produção nacional de fosfatados, o que representava 27% da capacidade da Mosaic no Brasil.
Em nome da preservação das margens de extração de excedente, de mais valor, ou seja, de lucros, da multinacional, milhares de trabalhadores foram demitidos. Foram eliminados 1.200 empregos diretos e terceirizados na planta, gerando um impacto estimado de cerca de 16 mil vagas diretas e indiretas em toda a cadeia produtiva e no comércio regional, e a soberania alimentar do país ficou ainda mais vulnerável.
É por isso que nós do PSTU entendemos que um setor estratégico como o de fertilizantes não pode se guiar pela lógica do lucro privado, mas sim por um planejamento estatal voltado às necessidades da classe trabalhadora e da agricultura nacional, sob controle operário.
O impacto nos alimentos: quem paga é o povo, quem lucra é o imperialismo
E se em Araxá vimos a perda brutal da capacidade produtiva, o reflexo imediato aparece na mesa do povo. O fechamento da planta araxaense e a ameaça de paralisação em Uberaba e Tapira significam menos produção nacional de fosfatados, o que encarece os insumos agrícolas. Esse aumento recai diretamente sobre o preço dos alimentos básicos, como arroz, feijão e hortaliças, que dependem de fertilização intensiva.
Enquanto o povo trabalhador sofre com a alta no supermercado, as transnacionais que dominam o agronegócio ampliam seus lucros em cada elo da cadeia. A Mosaic, monopólio dos fosfatados, lucra com a escassez de insumos e a chantagem do desemprego. Já a Cargill e a Bunge, que controlam o comércio internacional de grãos e são donas de marcas populares (como Liza, Soya, Delícia e Primor, presentes em toda prateleira brasileira), lucram com a especulação sobre os preços das commodities e com o encarecimento dos alimentos industrializados. O resultado é perverso: do adubo à gôndola do supermercado, o capital transnacional se apropria de cada etapa, e a fome e a carestia se tornam instrumentos de acumulação de capital.
Esse cenário reforça a urgência de romper com a lógica do lucro privado. Fertilizantes e alimentos são bens estratégicos que devem estar sob planejamento estatal e controle operário, para garantir soberania alimentar e preços acessíveis ao povo.
Desmascarando a direita e o reformismo conciliador
Diante desse ataque estrutural ao emprego e à soberania, as forças da burguesia local e seus operadores tradicionais dividem-se em duas táticas que, no fundo, servem ao mesmo propósito: desarmar a mobilização dos trabalhadores e salvar as margens de lucro do capital transnacional.
De um lado, a direita encastelada na prefeitura de Uberaba, sob o comando de Elisa Araújo, reage com a habitual submissão ao mercado. Diante da ameaça de paralisação e desemprego, a prefeita correu para oferecer o dinheiro do povo trabalhador em uma bandeja de prata. A proposta de criar um burocrático "Observatório de Fertilizantes" serve apenas como cortina de fumaça para mascarar um verdadeiro assalto aos cofres públicos: a redução da alíquota do ISS e o adiamento do recolhimento de impostos para a multinacional gringa. É a lógica entreguista que retira verbas da saúde e da educação de Uberaba para subsidiar o balanço financeiro de Wall Street. Elisa Araújo aceita a chantagem patronal de joelhos, transformando o imposto que deveria virar serviço público em prêmio para quem ameaça demitir.
Do outro lado, o reformismo e a velha guarda da conciliação de classes, representados por Anderson Adauto, apressam-se em canalizar a angústia da nossa classe para o pântano das ilusões institucionais. Adauto surfa na crise vendendo a falsa promessa de que uma "articulação nacional" e reuniões com ministérios do governo federal e prefeituras vão resolver o problema por meio do diálogo. Essa dita "frente ampla" é, na verdade, uma armadilha histórica. Juntar operários que estão sob o fio da navalha com a gerência de uma corporação imperialista na mesma mesa serve apenas para desmobilizar a luta independente.
A verdade seja dita: Anderson Adauto não está preocupado em salvar o emprego do trabalhador. Seu verdadeiro objetivo é articular um “pacotão de salvação corporativa”, pressionando por subsídios federais, abertura de mercado e isenções regulatórias que transferem ao Estado brasileiro os riscos da operação, enquanto a Mosaic segue acumulando lucros que vão para meia dúzia de bilionários. Ao mesmo tempo Anderson, busca se reposicionar como liderança política regional, de olho no tabuleiro eleitoral, depois de ter ficado inelegível por um longo tempo.
Para nós, do PSTU, e nossas pré-candidaturas para a Presidência da República, com Hertz Dias, e ao governo de Minas, com Duda Rafael, não há saída nessa articulação institucional. O reformismo seduz setores da vanguarda e dos sindicatos como linha de apoio, legitimando dinheiro público no bolso da multinacional em nome de "manter as vagas" e cacifas politicamente os seus. A defesa dos empregos e da soberania exige mobilização independente dos trabalhadores, sem ilusões em frentes amplas com o capital.
A urgência da reestatização sob controle operário
Não há remendo reformista ou mesa de negociação capaz de resolver uma contradição que é estrutural na Divisão Internacional do Trabalho (DIT). O Brasil produz hoje apenas cerca de 30% dos fosfatados que consome, e o fato de mais de 70% dessa produção nacional estar monopolizada pela Mosaic escancara a nossa vulnerabilidade. Ao entregar o controle da extração mineral e da transformação química de Tapira, Araxá e Uberaba ao imperialismo nos anos 90, o país abdicou de sua soberania industrial e alimentar para alimentar o agronegócio exportador.
A única forma de defender verdadeiramente os interesses de nossa classe é exigir a reestatização imediata do complexo químico e de mineração de Uberaba, Tapira e Araxá, integrando-o a uma empresa estatal de fertilizantes que planeje a produção nacional e rompa com a lógica do lucro privado. Essa reestatização, deve vir acompanhada do controle operário da produção, para que os próprios trabalhadores que conhecem a fábrica gerenciem o fluxo produtivo e garantam a estabilidade dos empregos.
Para quebrar a espinha dorsal da dependência, essa medida precisa caminhar lado a lado com a expropriação da grande agropecuária, da agroindústria e dos monopólios de exportação (como Cargill e Bunge). A unificação da fábrica reestatizada e da terra estatizada sob o planejamento democrático da economia é a única garantia de que as riquezas minerais da região e o suor da nossa classe não sejam transformados em dividendos na Bolsa de Nova York, mas sim em adubo para uma reforma agrária radical, capaz de garantir emprego digno na cidade e comida barata no prato do povo trabalhador.
Nenhuma demissão na Mosaic em Uberaba e Tapira!
Reabertura imediata da Planta de Araxá!
Reestatização do complexo químico sob controle dos trabalhadores!
Abaixo a omissão da prefeitura e nenhuma confiança nas propostas de Anderson Adauto!
Por um governo dos trabalhadores, que aponte uma saída socialista para a crise!