Estado de Israel sequestra ativistas da flotilha e expõe a cumplicidade internacional

Joana Salay
Estado de Israel sequestra ativistas da flotilha e expõe a cumplicidade internacional

Na madrugada de 30 de abril, embarcações da flotilha internacional que seguiam em direção à Faixa de Gaza foram interceptadas por forças navais do Estado de Israel no Mediterrâneo. A operação ocorreu em águas internacionais, próximo ao território europeu, a aproximadamente 900 quilômetros de Gaza.

A bordo estavam dezenas de ativistas de diferentes países. Militares israelenses invadiram as embarcações, assumiram o controle e levaram à força cerca de 180 tripulantes de 22 barcos. Muitos dos detidos permaneceram incomunicáveis por horas ou dias.

Após a captura, começaram a surgir os primeiros relatos. Os ativistas denunciaram condições degradantes de detenção, com privação de água, comida e medicamentos, além de maus-tratos. Há também registros de agressões físicas e psicológicas.

Captura de um dos barcos da flotilha Reprodução

O papel de governos europeus

O envolvimento da Grécia também veio à tona. Parte da flotilha havia enfrentado obstáculos logísticos e pressões políticas ainda em território grego, evidenciando como governos europeus atuam para impedir iniciativas que desafiem o bloqueio imposto a Gaza. Na prática, o cerco israelense é sustentado pela cumplicidade internacional.

Israel segue atuando sem respeitar nenhum limite legal. Interceptar embarcações em águas internacionais, manter civis presos sem acusação formal e permitir denúncias de tortura faz parte de um padrão recorrente. Não é uma exceção no tratamento à flotilha, mas uma pequena demonstração da prática constante do Estado genocida de Israel, sustentada pela proteção política das potências imperialistas e pela passividade de diversos governos.

Liberdade já!

Thiago e Saif: sequestro em alto-mar, tortura e prisão sem acusação

Entre os ativistas sequestrados, a situação do brasileiro Thiago Ávila e do palestino Saif Abukeshek evidencia a gravidade da operação. Quando 178 ativistas foram liberados em território grego, sendo mais tarde, na prática, deportados, Thiago e Saif ficaram presos de modo ilegal.

Ambos foram levados à força para território sob controle israelense, sem nenhuma acusação formal. Ainda assim, um tribunal decidiu prorrogar a detenção com base em alegações genéricas e políticas, sem apresentação de provas.

Durante esse período, surgiram denúncias detalhadas de tortura. Thiago e Saif relataram espancamentos, imobilização prolongada, vendagem dos olhos e isolamento ainda no mar. Depois da captura, foram transferidos para o centro de detenção de Shikma, proibidos de ter contato com a família e sem nenhuma garantia de segurança ou integridade física. Diante dessas condições e da prisão ilegal, ambos iniciaram uma greve de fome em protesto contra os maus-tratos e a manutenção da detenção.

Tortura e abusos

Thiago relatou interrogatórios que chegaram a durar oito horas, nos quais foi ameaçado diretamente de morte ou de passar “100 anos na prisão”. Os dois permanecem em isolamento total, em celas com iluminação intensa permanente, submetidos a frio extremo e privação de sono. São mantidos vendados sempre que deixam a cela, inclusive durante exames médicos.

A manutenção da prisão cumpre um papel que vai além do caso em si. A mensagem é nítida: qualquer tentativa de romper o bloqueio a Gaza será tratada como crime e todo palestino que ousar desafiar as atrocidades de Israel tem sua vida ameaçada. Ao mesmo tempo, busca-se intimidar novas iniciativas de solidariedade internacional.

Diante disso, a libertação imediata de Thiago Ávila e Saif Abukeshek não pode depender apenas de negociações diplomáticas. A continuidade da prisão e a gravidade das denúncias colocam a necessidade de uma forte campanha internacional.

Governos cúmplices e a omissão do Brasil

O governo Lula, até agora, limitou-se a declarações diplomáticas que não correspondem à gravidade do caso. A situação exige mais do que notas oficiais ou pedidos de esclarecimento. É necessário atuar de forma direta pela libertação dos ativistas e romper relações com Israel.

A mesma lógica vale para os governos europeus que, como no caso da Grécia, atuam diretamente para bloquear iniciativas de solidariedade internacional. O cerco a Gaza não se sustenta apenas por ação militar, mas por uma rede de apoio político, econômico e diplomático.

Entenda

Por que a flotilha incomoda tanto?

A flotilha internacional rumo a Gaza não é apenas uma missão de ajuda humanitária. É uma ação política direta que busca romper, na prática, o bloqueio imposto por Israel, um cerco genocida que há anos estrangula a vida da população palestina, restringindo o acesso a alimentos, medicamentos e condições mínimas de sobrevivência.

Reunindo ativistas de diversos países, a missão combina solidariedade internacional com ação direta. É justamente esse caráter que a torna tão incômoda.

Ao navegar em direção ao território palestino, a flotilha desafia não só o cerco militar, mas toda a arquitetura política que o sustenta, baseada no controle do território, na restrição da circulação e na imposição de uma crise humanitária permanente. Por isso, é constantemente alvo de repressão.

O objetivo não é só impedir a chegada da ajuda. É também evitar um precedente perigoso: demonstrar que o bloqueio pode ser enfrentado e que a solidariedade internacional pode assumir formas de ação direta. Em outras palavras, o alvo não é apenas a flotilha, é o exemplo que ela representa.

Sem mobilização, não há ruptura do bloqueio

A solidariedade internacional é fundamental, mas isolada não é suficiente para romper o bloqueio imposto a Gaza.

Em diferentes momentos, trabalhadores portuários ao redor do mundo já se recusaram a carregar armas destinadas a Israel. Greves e boicotes mostraram que é possível atingir diretamente os mecanismos que sustentam a máquina de guerra israelense. É esse caminho que precisa ser ampliado, cercando a flotilha de apoio em conjunto com a mobilização da classe trabalhadora.

A luta contra o genocídio em Gaza exige a entrada da classe trabalhadora internacional em cena, com métodos capazes de interromper o fluxo de armas, pressionar governos e impor derrotas concretas.

Campanha

Liberdade aos presos da flotilha e passagem segura para Gaza

Apesar da interceptação de parte das embarcações, a flotilha não foi interrompida. Outros barcos seguem em direção a Gaza e novas delegações se preparam para se somar à iniciativa, mantendo viva a tentativa de romper o bloqueio.

Esse movimento no mar precisa encontrar eco em terra. É necessário organizar, em cada país, uma campanha pela libertação de Thiago Ávila e Saif Abukeshek, ao mesmo tempo que se exige a passagem segura das novas embarcações da flotilha, enfrentando a tentativa de criminalizar a solidariedade ao povo palestino e pressionando os governos a garantir que a missão possa seguir sem novas interceptações.

A prisão de ativistas da flotilha é parte da mesma política que mantém Gaza sob cerco e bombardeio. É um capítulo do genocídio em curso contra o povo palestino.

Exigir sua libertação é urgente, mas não suficiente. É preciso ir além: romper relações com Israel, ampliar a mobilização internacional e construir uma resposta à altura da barbárie em curso. Porque, diante de um Estado que sequestra, tortura e mata com respaldo internacional, a neutralidade não é uma opção, é cumplicidade.

Entrevista

Fomos espancados, torturados física e psicologicamente”

Mandi retorna ao país após sequestro de forças militares de Israel Foto Sérgio Koei

Militante da LIT-QI e do PSTU, Mandi Coelho integrou a missão da Global Summud Flotilha em solidariedade ao povo palestino.

Por que você decidiu integrar a flotilha rumo a Gaza?

Primeiro, para fortalecer a luta em defesa dos povos oprimidos e de conjunto contra a opressão sobre as mulheres, os negros e as nacionalidades. Segundo, porque é impossível fechar os olhos para o genocídio que tem acontecido com a cumplicidade dos governos e com os ataques da extrema direita mundial. E terceiro, porque levar adiante a luta do povo palestino contra oapartheidisraelense, contra esse Estado sionista, é equivalente a lutar contra o nazismo na nossa época.

Como foi a ação das forças israelenses?E como foi o protesto que vocês fizeram?

Fomos sequestrados e mantidos numa prisão em alto-mar, organizada para funcionar como um campo de concentração. Fomos privados de água, comida, remédios, sono. Fomos espancados, torturados física e psicologicamente. Vimos em 48 horas uma pequena amostra da agressão que o povo palestino vive há 78 anos. E por isso também eles são mais violentos, em especial contra os árabes, os povos racializados e os palestinos, como o próprio Saif.

Durante a prisão nós fizemos assembleias e decidimos fazer um protesto não violento contra a ida de cinco pessoas para o confinamento solitário. Depois fomos liberados na Grécia. No entanto, eles mantiveram capturados o Thiago Ávila e o Saif, que estão sendo torturados e estão fazendo greve de fome. O Saif iniciou greve de água, e ambos correm risco de vida.

Que tarefas se colocam agora para fortalecer a luta palestina?

A primeira tarefa é batalhar pela liberdade, segurança e vida de Thiago e Saif. Também deve ser acompanhada da batalha pela segurança da família dele que está sob risco e ameaças do Mossad. Precisamos cobrar responsabilidade do Estado brasileiro.

Junto com isso, defender a flotilha, porque ela segue enquanto missão, partiu da Grécia esta semana, vai para a Turquia, com uma frota de cerca de 50 barcos navegando para tentar romper o cerco a Gaza.

[É preciso] Lutar contra a condenação do Zé Maria, que demonstra como o lobby sionista busca criminalizar para tentar desmontar a força da luta pela Palestina. Fazem isso atacando as liberdades democráticas, levando adiante projetos de censura que buscam criminalizar os que lutam como o PL da Tabata Amaral.

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