Trotsky foi assassinado a mando de Stálin em 21de agosto de 1940. Muitos ativistas questionam hoje a validade de rever polêmicas tão antigas entre Trotsky e Stálin. No entanto, discutir Trotsky hoje significa entender o que foi o século passado.
O século XX não passou em vão. A Revolução Russa de 1917 e o regime que dela derivou, junto com a Segunda Guerra Mundial, mudaram os rumos da humanidade. A revolução desfez o que a burguesia propaga de forma permanente: a suposta incapacidade dos trabalhadores de mudar a história.
O papel de Trotsky
Seu papel não se restringe ao personagem histórico à frente da revolução, na guerra civil e na formação do Exército Vermelho. Foi central nas polêmicas teóricas na esquerda russa sobre as possibilidades da revolução naquele início de século.
A maioria dos marxistas excluía a revolução socialista nos países atrasados: primeiro a revolução burguesa e democrática, depois – com o capitalismo maduro – a socialista, diziam. Trotsky partia de outro fato material: o capitalismo já era um sistema mundial, e nenhum país refaria sozinho a escada que a Inglaterra subira. Concluiu então que a burguesia russa, nascida tarde e sócia do imperialismo e do latifúndio, temia mais os próprios operários do que o atraso e não faria a revolução democrática que lhe cabia. E o campesinato, disperso, seguiria a burguesia ou o proletariado, sem programa próprio.
Restava à classe operária tomar o poder para resolver as tarefas democráticas: terra, soberania e liberdades; não poderia parar nelas, porque a reação burguesa e imperialista a obrigaria a avançar sobre a propriedade capitalista. Essa era a teoria da revolução permanente. Lênin também via a revolução possível na Rússia, mas passando por uma etapa democrática – sob um governo operário e camponês, sem ainda definir qual dessas classes daria a direção, mas já contra a burguesia e não aliado a ela.
Eram os dois de uma mesma vertente, que tomava o marxismo como método de análise da realidade e como guia para a ação. A Revolução Russa resolveu o debate na prática, e Lênin, apoiado na classe operária e na realidade material que a Primeira Guerra Mundial expôs, chegou às mesmas conclusões. Seu papel decisivo – construir um partido talhado para a luta pelo poder – foi reconhecido pelo próprio Trotsky como o mais fundamental.
O fio de continuidade do marxismo
A revolução europeia retrocedeu, e a Rússia ficou confinada num beco estreito, destruída pela intervenção imperialista. Sobre esse impasse se ergueu o regime burocrático que congelou a revolução sob a ditadura de Stálin. A invasão nazista à URSS foi derrotada, e isso foi uma grande vitória do proletariado, mas deu sobrevida à burocracia, isolando por décadas quem defendia a revolução mundial e a revolução política na URSS.
Qual foi, então, o papel de Trotsky na segunda metade do século XX? Manter um fio de continuidade revolucionário: a Quarta Internacional e uma compreensão do mundo à luz do método marxista. Sua análise sobre a URSS como Estado operário burocratizado foi confirmada de modo dramático entre 1989 e 1991, com a restauração do capitalismo nos países onde a burguesia fora expropriada. Não há socialismo em um só país: enquanto o imperialismo dominar o globo, estará sempre colocada a possibilidade da derrota da revolução.
A direção stalinista deformou os partidos comunistas e derrotou revoluções – China em 1927, Alemanha em 1933, Espanha em 1936, Itália e Grécia, no fim da Segunda Guerra Mundial, e outras. Rompeu com a independência de classe, fazendo alianças com a burguesia, e isso até hoje. Essa deturpação é a matriz teórica dos partidos antes revolucionários, hoje reformistas – que a vanguarda conhece como marxismo.

Trotsky continua fundamental
A tarefa de reconstruir uma direção revolucionária mundial segue em aberto, resgatando o marxismo. Não se vê nenhum partido de esquerda se declarar contra a independência de classe ou contra o internacionalismo. Mas esses princípios foram esvaziados na prática: declara-se independência de classe e governa-se com a burguesia; declara-se internacionalismo mas opõe-se à extensão da revolução.
A melhor homenagem que podemos render a Trotsky é seguir seu exemplo. Ele não ficou preso a dogmas: resgatou o método marxista e seus princípios, fez a análise concreta da situação concreta, como propunha Lênin.
A tarefa que Trotsky nos deixou é a elaboração de um programa de transição, que parta das demandas imediatas dos trabalhadores integradas num sistema cujo objetivo é a luta pelo poder. É ganhar a vanguarda para este programa e para o partido revolucionário.