Internacional

Israel anuncia redução de tropas, mas mantém sua política genocida em Gaza

Fábio Bosco, de São Paulo (SP)

3 de janeiro de 2024
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Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu foto: Avi Ohayon/GTO

No dia 1º de janeiro, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, anunciou a retirada de duas brigadas da Faixa de Gaza. Cada brigada tem cerca de 4 mil soldados. Ele alegou que os custos da guerra contra os palestinos se tornaram um peso para a economia israelense. Ele anunciou ainda que mais 3 brigadas devem se retirar para treinamento. Mas afirmou que o criminoso genocídio continuará por vários meses.

De fato, a economia israelense encolheu cerca de 2% apenas no último trimestre de 2023 devido aos altos custos militares e também ao impacto da convocação de reservistas esvaziando seus locais de trabalho. Mas o ministro não mencionou os outros dois motivos mais importantes: a pressão internacional pelo cessar-fogo que obrigou o governo dos Estados Unidos a pressionar Israel a mudar a estratégia militar em Gaza; e a resistência palestina que impôs 170 baixas israelenses em Gaza e destruiu uma grande quantidade de tanques e material militar.

A mudança de estratégia militar desejada pelos Estados Unidos consiste em substituir a chamada doutrina Dahiya de ataques indiscriminados sobre toda a população palestina, e de destruição generalizada, com o objetivo de jogar os palestinos contra o Hamas. Esta doutrina foi aplicada pelos sionistas em Dahiya, bairro de Beirute durante a invasão do Líbano em 2006. O presidente americano Joe Biden concorda em, por ora, manter a violenta ocupação de Gaza, mas deseja ataques focados sobre o Hamas e seus líderes para esvaziar a pressão internacional e para caracterizar uma “vitória” israelense sobre a resistência palestina.

Outro ponto de divergência é sobre a expulsão dos palestinos de Gaza. Os sionistas querem implementar a “solução final”, ou seja, a expulsão de toda ou quase toda a população palestina para o Sinai ou mesmo para diversos países. Para isso procura tornar impossível a sobrevivência humana em Gaza. Os Estados Unidos concordam em expulsar uma pequena parte dos 2,4 milhões de palestinos de Gaza através da concessão de vistos para vários países, mas entende que é politicamente inviável expulsar toda a população, particularmente para o Sinai, fragilizando o regime egípcio.

A última divergência pública é sobre o futuro de Gaza. Os sionistas querem uma Gaza sem palestinos e não aceitam a proposta americana de que a Autoridade Nacional Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, governe Gaza, abrindo a caminho na prática para um mini-estado palestino em Gaza e Cisjordânia.

No entanto, o Estado de Israel é um enclave imperialista no Oriente Médio e depende da ajuda econômica, militar e diplomática dos Estados Unidos para sobreviver. Por isso foi feito um discreto anúncio da redução de tropas em Gaza às vésperas da chegada do secretário de estado americano Antony Blinken a Tel Aviv, sem que isso represente qualquer reconhecimento de concessão às pressões americanas.

Suprema Corte anula reforma do judiciário

No mesmo dia, a Suprema Corte israelense decidiu por 8 votos a 7 votos, anular a reforma do judiciário aprovada pelo Knesset (parlamento israelense) que esvaziava seus poderes para condenar eventuais decisões do governo sionista.

A Suprema Corte tomou esta decisão agora aproveitando a impopularidade do governo liderado por Netanyahu e também a iminência do fim do mandato de dois membros da Suprema Corte, o que poderia mudar o resultado da apertada votação.

Esta reforma judicial dividiu o Estado sionista, a população sionista e até mesmo o movimento sionista fora da Palestina ocupada. Esta reforma foi aprovada no ano passado por uma maioria parlamentar que uniu a bancada de colonos nazi-sionistas liderada pelos partidos Sionismo Religioso do ministro de finanças Bezalel Smotrich, e Poder Judaico do ministro de segurança nacional Itamar Ben-Gvir, com a bancada dos partidos ultra religiosos (Shas e Judaísmo da Torá Unido) e do direitista Likud de Binyamin Netanyahu.

Esses colonos querem total liberdade para expulsar os palestinos e colonizar toda Jerusalém, Cisjordânia e Gaza. Os ultrarreligiosos querem manter o subsídio financeiro estatal para seus integrantes se dedicarem exclusivamente aos estudos religiosos e evadirem o serviço militar. Além disso, querem retirar da Suprema Corte o direito de barrar a nomeação de ministros condenados por corrupção, como ocorreu com o líder do Shas, Aryeh Deri. Já Netanyahu quer arquivar três processos judiciais por corrupção.

Por outro lado, a reforma encontra uma ampla oposição de vários setores da própria burocracia estatal (incluindo setores das forças armadas e serviço secreto) e da classe média sionista preocupados com os efeitos do discurso abertamente racista anti-árabe do atual governo sobre a imagem internacional do estado de Israel, bem como setores burgueses preocupados com os prejuízos provocados pela campanha de boicote (BDS) sobre seus negócios. Eles vêem a independência do judiciário como um contra-peso a um governo abertamente racista e fundamentalista. Havia ainda ampla oposição à reforma judicial entre a maior comunidade judia no mundo, localizada nos Estados Unidos.

Mobilizações pela renúncia do governo e pela convocação de novas eleições

O primeiro-ministro sionista Binyamin Netaniahu vive seu pior momento. Além da provável condenação por corrupção, Netanyahu enfrenta mobilizações de rua pela queda do seu governo. As pesquisas de opinião pública apontam que sua bancada perderia cerca de um terço de seus integrantes em novas eleições, e a oposição liderada por Benny Gantz e Yair Lapid, ambos criminosos de guerra sionistas, teria condições de formar um novo governo. Na verdade, a contraofensiva da resistência palestina liderada pelo Hamas de 7 de outubro praticamente jogou a pá de cal no futuro político de Netanyahu. A população sionista israelense entende que Netanyahu menosprezou os vários alertas sobre o ataque do Hamas no dia 7 de outubro e deixou a população isralense desprotegida. Além disso, as famílias dos israelenses presos em Gaza, querem que Netanyahu aceite as condições da resistência palestina de sua troca por presos políticos palestinos, condição que Netanyahu fará de tudo para não aceitar.

O futuro de Gaza

A resistência palestina liderada pelo Hamas conseguiu recolocar a questão palestina na agenda mundial, paralisou a normalização de relações diplomáticas entre os países árabes e o estado de Israel (apenas 3 estados árabes não estavam em processo de normalização: o Kuwait, a Argélia e a Tunísia), e ainda selou o futuro de Netanyahu.

Estas conquistas são muito importantes mas insuficientes. É necessário impor o fim da agressão à Gaza e à Cisjordânia, a entrada da ajuda humanitária em Gaza, o fim do cerco à Gaza e sua reconstrução. Estas conquistas são passos rumo à derrota política e militar do Estado de Israel, e à libertação da Palestina, do rio ao mar.

No entanto, há muitos inimigos. Além do Estado de Israel, seja na sua forma abertamente racista que prega a expulsão dos palestinos, seja na sua forma “moderada” de expulsar palestinos falando em paz e dois estados, tem o apoio do imperialismo americano e europeu, que financiam a limpeza étnica e o apartheid israelense.

A Rússia e a China se limitam a votar pelo cessar-fogo no Conselho de Segurança. Putin sempre apoiou o Estado de Israel e tem com ele um acordo que permite às forças israelenses bombardearem o território sírio sem que os russos acionem suas baterias antiaéreas instaladas na Síria.

Os países árabes e o Irã também se limitam a fazer declarações diplomáticas contrárias ao genocídio em Gaza, seja os aliados diretos do imperialismo americano, como a Arabia Saudita ou o Egito, seja os países do chamado eixo da resistência liderado pelo regime iraniano. Na verdade, apenas os Houthis do Iêmen têm tido um papel ativo ao impedir o trânsito de navios para portos israelenses no estreito de Bab al-Mandeb. As milícias iraquianas xiitas também têm promovido alguns ataques às tropas americanas no país. Já o Hezbollah libanês, o qual todos esperavam que fosse abrir um novo fronte de guerra ao norte da Palestina ocupada, se limita a trocar balas e mísseis com o exército de Israel numa pequena faixa fronteiriça, apesar dos esforços dos sionistas em generalizar os combates como demonstra o assassinato de Saleh Al-Arouri, um importante líder do Hamas, em Beirute no dia 2 de janeiro de 2024.

Os verdadeiros aliados do povo palestino não são os regimes árabes mas sim os trabalhadores e a juventude árabe e internacional. São estas forças que, através de uma Intifada palestina e uma nova onda de revoluções no mundo árabe fortalecidas pela solidariedade internacional, terão as condições para derrotar as forças militares e por fim ao Estado de Israel, e conquistar uma Palestina laica e democrática, do rio ao mar.