Na manhã de hoje, 3 de maio, cerca de 200 trabalhadores rurais ocuparam a área de cerrado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Carlos, interior de São Paulo. A ação é parte da luta por terra e por reforma agrária, diante da completa inércia do governo federal e dos órgãos responsáveis.
Organizada pelo Movimento Nacional de Luta no Campo e na Cidade (MNL), a ocupação reúne famílias de Descalvado e região que seguem há anos acampadas, muitas delas vivendo em condições precárias, inclusive pagando aluguel enquanto aguardam uma solução definitiva.
Os trabalhadores reivindicam medidas concretas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), incluindo a arrecadação imediata de terras para assentamento das famílias.
Entre as principais demandas estão a vistoria e possível desapropriação das fazendas Bela Aliança e Santa Maria, em Descalvado, além da arrecadação de imóveis da União nas cidades de Descalvado, Araras e Leme. Também exigem a destinação de áreas para assentar famílias que hoje vivem em situação absurda, pagando aluguel sem acesso à terra para produzir.
Outro ponto central é a arrecadação da Fazenda Santa Avoia I, em Barretos, já reconhecida judicialmente como grande propriedade improdutiva. O que, pela própria legislação, deveria garantir sua destinação à reforma agrária.
Contra o abandono e a burocracia
A pauta dos trabalhadores também inclui a continuidade dos processos de arrecadação de terras em Itirapina e a destinação de imóveis da massa falida da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Institucional de São Carlos (FADISC), além da liberação de créditos prometidos para 2025 às famílias assentadas em Descalvado.
A ocupação denuncia a lentidão e a burocracia do INCRA, que mantém milhares de famílias sem-terra enquanto grandes propriedades improdutivas seguem intocadas. Na prática, o que se vê é a continuidade de uma política que privilegia o agronegócio e os grandes proprietários, em detrimento dos trabalhadores rurais.
Os manifestantes também reivindicam uma reunião com a reitoria da UFSCar para discutir a possibilidade de utilização de parte do horto para o desenvolvimento de um projeto de produção agrícola, como quintais produtivos ou o chamado “Sisteminha”, baseado em experiências da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A proposta aponta para uma alternativa concreta: colocar a terra a serviço da produção de alimentos e da sobrevivência digna das famílias, rompendo com o modelo concentrador e excludente do campo brasileiro.

Só a luta conquista a terra
A ocupação da área da UFSCar é mais uma demonstração de que, sem mobilização, não há avanço na reforma agrária.
"Historicamente, foi através da luta direta que os trabalhadores conquistaram assentamentos e políticas públicas, enfrentando o latifúndio e os sucessivos governos que se recusam a enfrentar esse problema estrutural”, ressalta Waldemir Soares Jr., advogado e integrante do Setorial do Campo da CSP-Conlutas, que é solidária à luta por reforma agrária.
“A reforma agrária segue sendo uma necessidade urgente no Brasil. Enquanto milhões passam fome, terras férteis permanecem improdutivas nas mãos de poucos. É preciso desapropriar sem indenização os latifúndios improdutivos e garantir terra para quem nela vive e trabalha”, finaliza.