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Opinião: Afinal, o que são seitas?

Marcel Wando, de São Paulo

7 de novembro de 2022
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É muito comum no meio militante o seguinte diálogo: “Que bandeira é aquela?”. “Ah, aquilo é a organização tal, do dirigente W”. “Mas o que eles defendem? Nunca os vi”. “Ih, rapaz, não liga não, são uma seita”. Mas afinal, o que é uma seita, e qual relação os socialistas devem ter com elas?

O que é uma seita

Seita é uma palavra de origem no latim. Vem de secta, ou seja, seccionar, dividir. Originalmente se diziam seitas as organizações que divergiam das concepções dominantes das civilizações. Mas esse conceito ganhou novas definições com o tempo, que não se resume a apenas uma oposição.

A caracterização de seita, hoje, é mais comumente utilizada para se referir a pequenos grupos religiosos. As seitas religiosas são um grupo que não apenas diverge da religião dominante de seu país, mas que é hostil a ela e a todo o restante da sociedade. Quem não pertence à seita é um pecador passível da ira divina.

Seitas estabelecem uma reivindicação de possuir acesso exclusivo e privilegiado à verdade ou a salvação e seus adeptos comprometidos normalmente consideram todos aqueles que estão fora dos limites da coletividade como “um erro”.

O isolamento de seus membros

Seus dogmas buscam regular o pensamento e a ação de seus membros. Não apenas em um ou outro ponto, mas de toda sua vida, de modo totalizante. No mais das vezes, possuem uma liderança forte, incontestável e infalível. É ela quem determina esses dogmas.

Em geral, seus membros não reconhecem pertencer a uma seita. Seguem cegamente o líder que, para elas, seria o portador dessa Verdade e rechaçam todos os que criticam os dogmas ou a liderança. Assim, ficam blindados de qualquer tentativa de dissuadi-los dessas crenças.

Uma vez que uma pessoa entra em uma seita, ela se afasta e se isola de seus círculos de amizade, familiares, etc. Por isso, nunca é fácil sair dela. É muito grande o medo de ser acusado de herege e de perder o vínculo com a única comunidade que lhe resta.

A hostilidade com não-membros

O processo de isolamento se dá a partir da construção de uma visão de mundo de que a única forma legítima de agir e pensar é a da seita. Qualquer ponto divergente se transforma em um gatilho para a diferenciação. Isso gera um grau de coesão maior entre os seus membros e a homogeneização da forma de pensar e agir.

Isso pode desencadear, em alguns momentos, em violência física contra não-membros. Mas o mais comum é ver uma postura de “autoritarismo epistemológico”. Ou seja, se autodeclaram como fonte de autoridade para a atribuição legítima de heresia a outros grupos, e busca impor a eles suas determinações.

Devido a essa intolerância com os não-membros, a convivência com eles se torna impossível. Para evitar o convívio, promovem eventos socializadores entre si, dispõe de símbolos identificadores em comum, criam um vocabulário próprio e praticam a autoadulação.

A seita de Jim Jones

Jim Jones foi um líder messiânico de uma seita que se iniciou nos EUA na segunda metade do séc XX. Ele era um pastor que pregava o cristianismo, mas com uma visão mais preocupada com os problemas sociais e raciais. Chegou a juntar mais de mil pessoas, em sua maioria negros.

Conforme juntava pessoas, passou a juntar dinheiro para comprar um terreno na Guiana. Lá fundou o Projeto Agrícola do Templo do Povo, também conhecido como “Jonestown”. Era uma comunidade fechada, sem comunicação com o exterior, onde todos comiam o que plantavam e viviam em função das ordens de Jones.

A seita exigia de seus membros o abandono de sua vida passada. Seus amigos, famílias, pertences, etc. Ainda, que aceitassem todo tipo de violência (verbal, física e sexual). Mas Jonestown ficou mais conhecida pelo episódio que encerrou a comunidade: o suicídio coletivo de centenas de pessoas que viviam lá.

Seitas políticas

É comum tomar emprestado esse conceito de Seita para caracterizar organizações políticas. Nem toda seita política termina em tragédia, como o caso de Jonestown. Mas em geral seguem uma lógica semelhante de isolamento dos membros e hostilidade para com a comunidade ao redor.

Além disso, vemos sempre uma liderança que estabelece um programa baseado em dogmas e o impõe pelo uso da força, do assédio e do constrangimento de seus membros. É um processo que coloca a base da organização num estado de sujeição e dependência, aceitando a dominação desse líder de forma passiva.

Uma outra forma de usar esse conceito é retomando o significado original da palavra: uma organização pequena opositora. Nesse caso, são grandes organizações políticas que buscam isolar as pequenas a partir de atribuir-lhes uma imagem perigosa, hostil.

Seitas podem ser organizações grandes

Existem muitas pequenas organizações que são seitas. Mas é possível a existência de uma organização grande que possui um líder mítico, infalível, que é seguido sem ser questionado. Que se impõe para base pela força e que é hostil com os não-membros.

É o caso daqueles fanáticos por Bolsonaro. Não estamos falando de todas as 50 milhões de pessoas que dão seu voto a ele. Mas de uma pequena minora que segue o adorando independente das atrocidades que ele venha a cometer. Essa legião é uma seita enorme, hostil ao restante da sociedade e submissa ao seu líder.

Podem existir grupos fascistas seguidores de Bolsonaro, sim. Inclusive, hoje, é muito comum as seitas fascistas. Mas a seita bolsonarista não é, necessariamente, fascista. Se fosse, estaríamos vivendo um processo de guerra civil desde 2019, quando esse grupo já contava com milhões de membros.

O comportamento sectário

Uma seita exige de seus membros um comportamento sectário, por óbvio. Mas esse comportamento não é visto apenas dentro das seitas. É muito comum ver membros de organizações que não são seitas adotando comportamentos sectários.

Uma organização pode não ter a intenção de se isolar do restante da sociedade e ser hostil a ela. Mas um membro dessa organização (ou grupo de membros) pode agir dessa forma. Nesse caso, as organizações devem estar atentas a esse fenômeno e ter política para enfrentar esse comportamento.

Trotsky chegou a dizer no Programa de Transição sobre os sectários que “aquele que não procura nem encontra o caminho do movimento de massas não é um combatente, mas um peso morto para o Partido”. Não há espaço no marxismo para o sectarismo.

Como os socialistas devem se relacionar com as seitas?

O primeiro passo, como já foi dito, é combater o sectarismo nas próprias fileiras. Se necessário, afastando membros convictos dessas políticas. Não deve existir espaço para o sectarismo dentro das organizações socialistas e devemos encontrar formas de nos conectar ao restante da classe trabalhadora.

Mas é inevitável que seitas orbitem ao nosso redor, buscando se alimentar de migalhas que caem da nossa mesa. Por um lado, não devemos perder nosso tempo com esses grupos, eles que lutem. Quanto mais atenção damos, mais eles se interessam, e não devemos bater palma para maluco dançar.