O país do futuro que nunca chega

Julio Anselmo
O país do futuro que nunca chega

O Brasil é sempre o país do futuro que nunca chega. Mais uma vez, na eleição presidencial, são promessas e promessas. Palavras bonitas para ganhar seu voto, propostas mágicas para resolver tudo. A polarização segue, empilham-se escândalos, e cada lado esgrime os casos do outro. Mas a vida dos trabalhadores segue difícil, e os problemas sociais continuam sem solução.

O escandaloso caso Master, com a revelação do altíssimo grau de relações entre Daniel Vorcaro e diferentes setores das instituições da República, apenas escancara aquilo que já devia ser evidente: o funcionamento normal desse regime significa a submissão dos três Poderes aos interesses de grandes bancos e empresas. Quem domina a economia também possui enorme poder sobre os políticos dos grandes partidos capitalistas.

Lula e Flávio Bolsonaro representam projetos diferentes e disputam interesses distintos de setores da burguesia. Mas nenhum dos dois rompe com a estrutura econômica e social que mantém o país dependente, desindustrializado e submetido à exploração dos trabalhadores.

Programa social-liberal do PT ataca os trabalhadores

O governo Lula criou o arcabouço fiscal, que retira dinheiro da saúde e da educação para seguir remunerando banqueiros e investidores estrangeiros através da dívida pública. Por isso, o ministro da Fazenda diz que será preciso um novo ajuste fiscal em 2027, o que significa mais ataque às áreas sociais.

Mesmo uma série de medidas tidas como progressivas, como a isenção do Imposto de Renda a quem ganha até R$ 5 mil ou o Programa Desenrola, logo se mostraram bastante insuficientes dado o alto custo de vida e o tamanho da exploração que afeta os trabalhadores. E foi Lula quem escolheu Gabriel Galípolo, que mantém os juros altos. A luta dos trabalhadores colocou o fim da escala 6x1 no centro do debate. O governo, porém, mais uma vez, confiou na negociação, empurrando a reivindicação para dentro das instituições.

O governo bateu recorde de concessões e privatizações de estradas. Aprovou projeto de lei que entrega as terras raras para empresas estrangeiras com R$ 7 bilhões em auxílios e benefícios às grandes mineradoras. E já agendou mais um leilão do petróleo para 7 de outubro.

As grandes empresas embolsam os benefícios fiscais, não investem no país e remetem lucro para o exterior. Por isso, a taxa de investimento não muda nos governos do PT, apesar de todo o incentivo com dinheiro público. Prometendo um programa democrático e popular, na prática o PT aplica um programa neoliberal que mantém intactos os interesses dos capitalistas.O programa do PT se apresenta como desenvolvimentista, mas permanece subordinado aos interesses dos capitalistas e, por isso, reproduz as medidas neoliberais exigidas pelo sistema.

Governos do PT: 18 anos sustentando o regime

O PT é o partido que mais governou a Nova República. São 18 anos de governo em 38 anos da Constituição de 1988. Prometeram bem-estar social, aposentadoria, saúde e educação de qualidade, combate à pobreza, salário melhor. De lá para cá esses direitos foram atacados e destruídos. Hoje temos emprego precário, salário arrochado e custo de vida alto.

Isso é resultado de décadas de decadência provocada pelo aprofundamento da subordinação aos países imperialistas, como EUA e os da Europa, agravada com a entrada da China. A burguesia brasileira, sempre associada aos monopólios desses países, construiu seus próprios lucrando com a superexploração dos trabalhadores e a dilapidação dos bens públicos, apoiada no Estado e funcionando como apêndice do capital estrangeiro. O Brasil foi desindustrializado. Exportamos matérias-primas,commoditiesagrícolas, minério e petróleo e importamos o que é caro e tecnológico.

Esse projeto vem desde a ditadura militar, mas com seu fim muita coisa foi prometida. O PT está entre os que defendiam que bastava votar em seus candidatos dentro da democracia dos ricos para que as coisas mudassem.

A realidade é categórica. Não apenas não avançamos, como retrocedemos. Os direitos conquistados nos governos do PT são insuficientes e passageiros. Tanto que dois anos de Temer e quatro de Bolsonaro deram conta de fazer retroceder até as pequenas concessões. A herança maldita que o PT usa como justificativa é a prova de que as mudanças feitas antes não resolveram nenhum problema estrutural.

Por que o PT no governo não faz o que promete?

O problema não é correlação de forças. Não basta eleger mais deputados para ter maioria no Congresso e, aí, o Brasil melhoraria. O problema é o próprio projeto. O PT não rompe com a estrutura econômica que produz a decadência, a dependência e desigualdade.

Não há como reindustrializar o Brasil sem enfrentar os grandes grupos econômicos que controlam setores estratégicos. Nem melhorar de forma permanente a vida dos trabalhadores enquanto uma pequena minoria controla a riqueza produzida por milhões.

Como o PT ajuda o imperialismo de Trump e a extrema direita

A extrema direita deve ser derrotada. Mas não adianta vencer uma eleição se o resultado é um governo que não enfrenta nenhum problema estrutural, gera desmoralização e dá munição para a própria extrema direita. Depois de mais quatro anos de governo Lula, ela segue forte e pode inclusive vencer esta eleição.

Quando Lula elogia Trump, garante os interesses dos monopólios e se torna fiador do regime e do STF, ele alimenta o sistema que produz e fortalece os bolsonaro da vida. Quem mais ajuda a extrema direita no Brasil é o governo do PT, ao se aliar à direita e administrar o sistema.

Flávio Bolsonaro se encontra com Trump na Casa Branca

Bolsonaro, Trump e a extrema direita são barbárie contra os trabalhadores

Bolsonaro é um traidor da pátria. Atua como lobista de Trump, defendendo aqui os interesses dos conglomerados dos EUA e a política de tratar a América Latina como quintal.

O projeto da extrema direita é o ultraliberalismo. Acreditam que basta reduzir o Estado, cortar verba e acabar com qualquer política industrial que as leis do mercado desenvolvem o país sozinhas. Dizemos “acreditam” porque na hora de cortar não mexem nas benesses para os empresários, como Plano Safra e isenção de imposto. Reduzir o Estado, para eles, é sempre reduzir as áreas sociais e os direitos dos trabalhadores.

Flávio Bolsonaro fala em reduzir o custo do trabalho, que não é outra coisa senão cortar direitos e rebaixar salário para aumentar o lucro das grandes empresas. São contra o fim da escala 6x1, contra a aposentadoria pública e a favor da privatização do SUS. Defendem o negociado acima do legislado, como se o trabalhador sozinho pudesse arrancar conquistas numa negociação com o patrão. Prometem ajuste fiscal, cortando saúde e educação, e reforma administrativa, retirando direitos.

O governo Bolsonaro e Tarcísio, em São Paulo, são responsáveis por privatizações que só trouxeram desgraça, como o marco do saneamento e a Sabesp. A isso se somam as ameaças autoritárias e o sonho com a volta da ditadura.

Na segurança pública, defendem populismo penal e violência policial aberta, enquanto fazem vista grossa para a relação entre a Faria Lima e as facções. Chegam a fazer coro com Trump na definição das facções como terroristas, o que abre brecha para agressão militar dos EUA e não combate crime nenhum. Serve para subordinar o país.

Augusto Cury e o charlatanismo neoliberal

Cury disparou como suposta terceira via, mas, na prática, pega o pior de cada lado da polarização. Seu programa mistura neoliberalismo com populismo, charlatanismo de coach e propostas mirabolantes que não resolvem nada, como colocar drone para combater feminicídio. É um tecnicismo tosco que surfa na ideia de que a tecnologia sozinha resolve os problemas do capitalismo.

Diferentes faces da ultradireta

Renan, Caiado e Zema: a extrema direita sem Bolsonaro

Os três já foram bolsonaristas. Em diferentes momentos, afastaram-se e agora tentam disputar a base eleitoral da extrema direita criticando em algum grau Flávio Bolsonaro. Mas carregam o mesmo programa em muitos pontos. São também inimigos dos trabalhadores.

Vote Hertz Dias 16

Com os trabalhadores contra o sistema

O caminho de Hertz Dias e do PSTU é outro. A polarização não toca nos problemas fundamentais do Brasil. De um lado, o petismo apresenta a possibilidade de administrar o capitalismo de maneira mais social e conciliadora. Do outro, a extrema direita oferece uma saída autoritária e abertamente contra os direitos dos trabalhadores. Em ambos os casos, os problemas estruturais permanecem.

Para os trabalhadores, a questão não é mais ou menos Estado, não é mais investimento ou mais abertura comercial para os EUA, para a Europa ou para China. A saída não é criar condições para o capitalismo florescer aqui. O problema é que não há como reindustrializar e desenvolver o país sem romper com a dominação dos grandes grupos capitalistas. Não há setor da burguesia que seja aliado dos trabalhadores e defensor da soberania de verdade.

Por isso propomos como eixo a estatização dos setores estratégicos da economia sob controle dos trabalhadores. Pegando meia dúzia de empresas de mineração, petróleo e energia, mais a cúpula do agronegócio, seria possível acessar um volume enorme de excedente e colocá-lo a serviço do desenvolvimento do país, reindustrializando e melhorando a vida de quem trabalha. Isso é Brasil soberano de verdade.

Muitos respondem que isso é inviável. De fato é se acharmos que dá para fazer nos marcos do atual regime. Mas não é isso que propomos. Queremos ganhar a classe trabalhadora para lutar por este programa. Se os trabalhadores o tomam como seu, podem obrigar a sua implementação e abrir condições para construir um governo dos trabalhadores, sem capitalistas e sem se apoiar nas instituições podres da democracia dos ricos. Um governo em que o poder seja exercido pela auto-organização dos próprios trabalhadores e em que esses organismos substituam o atual poder burguês corrupto e explorador.

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