As fortes chuvas que atingem Pernambuco e Paraíba desde a última sexta-feira (1º de maio) deixam mortos, milhares de desabrigados e um rastro de destruição que, mais uma vez, evidencia uma realidade conhecida: no Brasil, desastres naturais têm endereço social.
Em Pernambuco, dados da Defesa Civil estadual confirmam seis mortes na Grande Recife, todas provocadas por deslizamentos de terra em áreas de encosta. Os casos se concentraram em bairros periféricos como Dois Unidos, na Zona Norte do Recife, e Passarinho, em Olinda; territórios marcados pela ocupação precária, alta densidade populacional e ausência de infraestrutura urbana adequada.
Entre as vítimas estão uma mulher de 24 anos e seu filho, soterrados dentro de casa em Dois Unidos, e uma mulher de 20 anos com um bebê de apenas seis meses, mortos em circunstâncias semelhantes em Passarinho. As demais mortes seguem o mesmo padrão: famílias atingidas dentro de suas próprias casas, em áreas historicamente negligenciadas pelo poder público.
O impacto das chuvas vai muito além das mortes. Em Pernambuco, mais de 2.190 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, sendo 1.096 desabrigadas e 1.094 desalojadas, segundo a Defesa Civil. Na Paraíba, o governo estadual decretou estado de calamidade pública após chuvas que superaram médias históricas em municípios como Alhandra, Pilar e Mogeiro. Os dados oficiais apontam mais de 700 desabrigados, mais de 600 desalojados e cerca de 16 mil pessoas afetadas diretamente. Cidades como Ingá, Itabaiana e Salgado de São Félix enfrentam alagamentos, perdas materiais e o deslocamento de famílias inteiras.

A tragédia tem território e classe
Os impactos mais severos se concentram nas periferias urbanas, nos morros e nas encostas, áreas onde a população pobre é empurrada historicamente pela falta de políticas habitacionais. No Recife, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que cerca de 345 mil pessoas vivem em favelas com ruas sem pavimentação, enquanto mais de 626 mil moradores estão em áreas sem sistemas adequados de drenagem. Nessas condições, a chuva não escoa: ela invade e destrói tudo o que encontra pela frente.
A desigualdade racial também marca esse cenário. Na Paraíba, a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostra que pessoas brancas têm rendimento médio de R$ 3.565, enquanto pardos recebem R$ 1.837 e pretos, R$ 1.414. Ao mesmo tempo, 47,4% da população vive abaixo da linha de pobreza e 7,4% em extrema pobreza. Como a maioria da população do estado é negra (pretos e pardos), são esses os grupos mais expostos às áreas de risco.
Em Pernambuco, a realidade se repete. O Censo 2022 mostra que mais de 65% da população é negra. Ainda assim, essa maioria concentra os piores indicadores sociais. A taxa de analfabetismo entre pretos (10,1%) e pardos (8,8%) é mais que o dobro da registrada entre brancos (4,3%). Não por acaso, estudos sobre as chuvas de 2022 indicaram que 84% das pessoas atingidas eram negras e viviam em áreas precárias. A desigualdade, aqui, não é abstrata; ela é territorial.
Não é fatalidade: é política
Não se trata de desastre natural, mas de resultado de décadas de abandono. Há responsabilidade nas três esferas de governo — federal, estadual e municipal — que seguem priorizando respostas emergenciais, enquanto ignoram as causas estruturais do problema.
Alertas são emitidos, famílias são retiradas temporariamente, mas sem alternativa concreta de moradia, acabam retornando às mesmas áreas de risco. O ciclo se repete a cada nova temporada de chuvas.
Frente a essa triste realidade, precisamos defender medidas urgentes, como:
— Plano emergencial com abrigos dignos, alimentação, assistência e auxílio financeiro às famílias atingidas;
— Política habitacional em larga escala, com reassentamento de moradores de áreas de risco;
— Utilização de imóveis e terrenos ociosos para habitação popular;
— Investimentos massivos em drenagem urbana, contenção de encostas e saneamento;
— Urbanização das periferias e regularização fundiária.
Para isso, é necessário romper com a lógica atual de investimento público, que prioriza o pagamento da dívida e interesses privados, enquanto deixa a população trabalhadora exposta ao risco permanente.

Crise climática agrava o cenário
Os eventos recentes também se inserem em um contexto mais amplo de transformação climática. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas apontam que o Nordeste brasileiro é uma das regiões mais vulneráveis do país, com aumento das temperaturas, maior irregularidade das chuvas e intensificação de eventos extremos.
Estudos indicam que a região pode registrar redução média de 20% a 40% nas precipitações ao longo do século, ao mesmo tempo em que aumentam episódios de chuvas intensas concentradas em curtos períodos, exatamente o tipo de evento associado a enchentes e deslizamentos, como os que atingem Pernambuco e Paraíba.
Pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicam ainda o aumento do déficit hídrico e maior irregularidade na disponibilidade de água, afetando tanto áreas rurais quanto urbanas. No campo, estudos do Banco do Nordeste apontam impactos econômicos significativos: na Paraíba, perdas projetadas podem chegar a 24% a 37% na produtividade agrícolas.
Esses dados mostram que a crise climática não é apenas ambiental, mas também econômica e social, afetando diretamente as condições de vida da população, especialmente nos territórios mais vulneráveis. Ao intensificar eventos extremos e pressionar sistemas urbanos já frágeis, ela agrava desigualdades e amplia o risco de novas tragédias.
A crise climática está diretamente ligada ao modelo econômico baseado na exploração intensiva dos recursos naturais, no desmatamento e na emissão de gases de efeito estufa. O resultado é um cenário de maior instabilidade climática, com impactos desiguais: embora o fenômeno seja global, seus efeitos recaem de forma mais severa sobre as populações mais pobres, que vivem em áreas de risco e sem infraestrutura adequada.
A chuva cai sobre todos, o desastre não
O que se vê em Pernambuco e Paraíba é a combinação entre crise climática e desigualdade social. A chuva é um fenômeno natural. A tragédia, não. Ela é produzida por um modelo de sociedade que organiza o espaço urbano de forma desigual, empurra a população pobre para áreas de risco e transforma eventos previsíveis em mortes evitáveis.
Essa realidade não é um acidente, mas consequência direta do capitalismo. Um sistema que coloca o lucro acima da vida, concentra renda, precariza as condições de moradia e nega à maioria da população o direito a uma existência digna. É essa lógica que explica por que milhões vivem sem saneamento, sem infraestrutura e expostos a riscos permanentes, enquanto recursos públicos seguem sendo direcionados para atender interesses privados.
Esse mesmo modelo está na base da crise climática global. A exploração intensiva dos recursos naturais, o desmatamento, a expansão predatória do agronegócio e a emissão de gases de efeito estufa são expressões de um sistema que precisa crescer continuamente, independentemente dos limites ambientais. O resultado é um planeta cada vez mais instável, com eventos extremos mais frequentes e mais intensos e com impactos desiguais, que recaem sobretudo sobre a classe trabalhadora e o povo pobre.
Nesse sentido, a tragédia não começa com a chuva, mas com a forma como a sociedade é organizada. E, por isso, não pode ser resolvida apenas com medidas técnicas ou paliativas. Para enfrentar de fato esse cenário, exige-se superar o próprio sistema que o produz. Significa colocar a vida acima do lucro, reorganizar as cidades a partir das necessidades da maioria e garantir acesso universal à moradia, saneamento, infraestrutura e serviços públicos.
A alternativa apontada é a construção de uma sociedade socialista, em que os recursos sejam planejados e utilizados para atender às necessidades humanas e não à lógica do mercado. Uma sociedade em que seja possível garantir condições dignas de vida, proteger o meio ambiente e enfrentar a crise climática de forma estrutural.
Diante disso, a conclusão é direta: enquanto o capitalismo seguir organizando a vida social e econômica, tragédias como as que atingem Pernambuco e Paraíba tendem a se repetir. Superá-lo não é apenas uma opção política é uma necessidade para garantir o direito à existência humana e à preservação do próprio planeta.