Eudes Melo, de Manaus (AM)
Na última quarta-feira (dia 15), ocorreu um vazamento químico de monômero de estireno, substância utilizada na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e isopor, na empresa Innova, localizada no Distrito Industrial I de Manaus. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM).
Trata-se de uma calamidade ambiental que as autoridades municipais vêm tratando como uma "emergência química", em uma tentativa de minimizar os danos causados ao meio ambiente, aos trabalhadores do Polo Industrial de Manaus (PIM) e ao conjunto da população atingida.
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), 211 pessoas procuraram atendimento na rede pública de saúde com sintomas associados à inalação do gás, como falta de ar, náuseas e desmaios. De acordo com a secretaria, apenas um paciente permanecia internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em recuperação e com baixo risco de morte. Também foi registrada a morte de um homem de 67 anos que buscou atendimento após relatar mal-estar provocado pelos efeitos do vazamento. A SES-AM informou, entretanto, que não há relação comprovada entre o óbito e o acidente.
A Videolar-Innova, responsável pelo vazamento, registrou faturamento bruto de R$ 5,6 bilhões e receita líquida de R$ 4,8 bilhões em 2025. A empresa atua na fabricação de produtos considerados de alto risco. Originada da Videolar, a petroquímica produz resinas e transformados plásticos destinados às indústrias de embalagens, alimentos, infraestrutura e construção civil.
Na área petroquímica, fabrica produtos estirênicos como etilbenzeno, monômero de estireno, tolueno, poliestirenos de uso geral e de alto impacto. Já no setor de transformação plástica, produz filmes de polipropileno biorientado e laminados plásticos em bobinas de poliestireno e polipropileno.
O que demonstra o descaso da empresa é que, mesmo manipulando substâncias químicas de alto risco e tendo conhecimento da necessidade de reforçar o sistema de resfriamento da área dos tanques, adotar outras medidas preventivas e considerar as previsões de aumento das temperaturas para o segundo semestre do ano, limitou-se a realizar treinamentos de simulação de incêndio com seus trabalhadores.
A empresa foi fundada e é presidida pelo empresário gaúcho Lírio Albino Parisotto, de 72 anos, apontado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do país, com patrimônio líquido estimado em R$ 14,1 bilhões. Influente na política amazonense, Parisotto foi segundo suplente do senador Eduardo Braga (Movimento Democrático Brasileiro – MDB) entre 2011 e 2019.
O empresário também foi denunciado e condenado pela Justiça brasileira por agredir a modelo Luiza Brunet, episódio que resultou na fratura de quatro costelas da vítima.
Além da Videolar-Innova, Parisotto possui investimentos expressivos no mercado financeiro e participações em empresas como Vale, Petrobras, Hypera, Celesc, Usiminas e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Vale lembrar que a Vale foi responsabilizada pelos rompimentos das barragens de Mariana, em 5 de novembro de 2015, que deixou 19 mortos e um desaparecido, e de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, tragédia que provocou 272 mortes e três desaparecimentos.
Esses episódios revelam uma lógica em que o lucro é colocado acima da vida, do meio ambiente e da segurança da população. Para seus autores, o poder econômico permite que grandes empresários continuem negligenciando medidas de segurança sem sofrer punições proporcionais à gravidade dos danos causados.
Governo do Amazonas e Prefeitura de Manaus fazem guarida para a Innova
Diante da gravidade do episódio, o governo do Estado do Amazonas permanece em silêncio, mantendo uma postura de conivência diante da tragédia ambiental.
A Prefeitura de Manaus, comandada por Renato Júnior, limitou-se a aplicar uma multa de R$ 4,5 milhões, decretar estado de alerta, instalar um comitê de crise e suspender as aulas em algumas escolas. Entretanto, a medida considerada mais urgente não foi adotada: a dispensa imediata dos trabalhadores do Distrito Industrial, como forma de preservar sua saúde. Essa decisão não foi tomada para evitar impactos sobre os lucros das grandes empresas.
O governo presidido por Roberto Cidade, deve romper o silêncio e, em conjunto com a prefeitura, adotar todas as medidas cabíveis, incluindo a realização de uma investigação rigorosa por todos os órgãos competentes e a aplicação das punições previstas em lei.
O PSTU defende a expropriação das empresas responsáveis, destinando seus recursos à recuperação das áreas atingidas e à proteção da população afetada.
Os desastres ambientais são características históricas do capitalismo
As empresas conhecem as normas técnicas e de segurança exigidas para a manipulação industrial de produtos químicos de baixo e alto risco. Entretanto, ao reduzirem investimentos para diminuir custos, colocam em risco a vida dos trabalhadores e o meio ambiente.
O ocorrido em Manaus não foi um acidente, mas um desastre decorrente de decisões conscientes voltadas à preservação da produtividade, do lucro e da acumulação de capital em detrimento da vida humana.
Nem mesmo o desastre de Bhopal, no estado de Madhya Pradesh, na Índia, considerado o maior acidente industrial da história, ocorrido em 3 de dezembro de 1984, na fábrica da Union Carbide Corporation (UCC), foi suficiente para impedir que tragédias semelhantes continuassem ocorrendo. Isso demonstra que, na lógica capitalista, o aumento dos lucros permanece acima da proteção da vida e do meio ambiente.
Os casos de explosões industriais de grandes proporções multiplicam-se em diversos países em razão da falta de investimentos em segurança. Entre eles estão a explosão de Oppau, na Alemanha, em 1921, que matou 521 pessoas e feriu cerca de duas mil; a tragédia do Porto de Texas City, nos Estados Unidos, em 1947, com 581 mortos; a explosão da fábrica da AZF, em Toulouse, na França, em 2001, que deixou 31 mortos; a explosão no porto de Tianjin, na China, em 2015, que matou 173 pessoas; e a explosão no porto de Beirute, no Líbano, em 2020, que provocou mais de uma centena de mortes, milhares de feridos e cerca de 300 mil desabrigados.
A resposta do sindicato é insuficiente
Em meio a essa situação, o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal) publicou apenas uma nota nas redes sociais cobrando informações do governo, defendendo a possibilidade de liberação dos trabalhadores atingidos pelo vazamento e informando a ampliação de sua ouvidoria para receber denúncias.
Essa resposta é insuficiente. O sindicato tem que convocar imediatamente uma paralisação dos trabalhadores, exigindo punição aos responsáveis e a estatização da empresa.
A prioridade deve ser preservar a vida dos trabalhadores e trabalhadoras do Polo Industrial de Manaus. É necessário organizar a classe trabalhadora para exigir responsabilização dos culpados, de modo que tragédias como essa não voltem a ocorrer.
A negligência e a falta de compromisso das grandes empresas com a vida da classe trabalhadora e com o meio ambiente não têm fim. Por isso, defendemos a estatização imediata da Innova, a ampliação das multas aplicadas e a destinação dos recursos financeiros da empresa ao sistema público de saúde, para reparar os danos causados às pessoas atingidas e promover a recuperação ambiental.